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Porque A Arte Somos Nós

Diretamente das camadas jovens do YouTube para o estrelato do mundo da música indie pop, Conan Gray expõe o coração em “Kid Krow“, o primeiro álbum de um artista em ascenção. Com pouco mais de 30 minutos de duração, o músico reflete as suas experiências juvenis num disco altamente pessoal. O próprio título é alusivo à infância do jovem, que atualmente tem 21 anos, quando os seus amigos diziam que o seu animal espiritual era o corvo, por causa da sua escuridão e energia.

Sendo certo que demonstra mais eletricidade do que negritude, o álbum não se esquiva de temas mais melancólicos, próprios de uma geração que cresceu na plenitude da idade da Internet, à qual Gray pertence. Se fosse um filme, seria certamente uma história coming of age, sendo que matérias como a solidão, tristeza e corações partidos são cantadas da perspetiva de um adolescente dos nossos dias que frequentemente se sentia sozinho apesar de viver na era da comunicação.

O paradoxo começa com a suavidade de Comfort Crowd, uma faixa que celebra a amizade como resposta ao isolamento involuntário. Num ano onde fomos, mais do que nunca, incentivados a praticar o distanciamento social, esta canção é particularmente pertinente no que diz respeito à mensagem que pretende transmitir. Passando para um campo mais íntimo, Wish You Were Sober é bem-intencionada liricamente, mas por ser tão típica, genérica e passageira acaba por traduzir-se num ponto baixo do álbum. Felizmente, Maniac arrebita o ambiente com um refrão memorável e um trabalho vocal mais interessante. Um ótimo exercício em música pop do início ao fim.

O que se segue é (Online Love) um dos dois interlúdios que repartem o álbum em três secções. Ambos não ultrapassam um minuto de duração e ainda bem, porque causam mais estragos do que acrescentos. Quebram o ritmo do disco e soam fora de contexto. Algo que retoma com o single Checkmate, que dá início a uma secção onde a guitarra começa a ter um papel proeminente. Além desse plus, o cuidado na mistura dos instrumentos oferece uma experiência curta mas doce. Em contraste, The Cut That Always Bleeds é uma faixa mais cheia e completa, com um início que constitui um autêntico teaser até o breakdown iniciar um pós-refrão bastante prazeroso e merecido.

O cantor Conan Gray

Chegada a sétima faixa, Fight or Flight, Conan exteoriza o seu lado mais rocker com riffs de guitarra elétrica simples mas eficientes. Com um carácter viciante e menos de três minutos de duração, é facilmente comparável a um quadradinho de chocolate de leite. Fica o gosto de um caminho pelo qual o artista pode muito bem envergar com sucesso no futuro, mas, logo de seguida, Affluenza reforça que as suas influências são outras. Aqui, em certos momentos, Michael Jackson vem à memória através das interjeições livres. É de forma geral uma canção sólida e fácil de revisitar.

Cada vez mais perto do final do álbum, o músico já revelou um pouco de tudo quer em termos sonoros como de letras, até que entra algo semi-novo, a balada Heather. Com um refrão sentimental, a canção está destinada a mover o coração de amantes e saudosistas de tempos e pessoas. Assim como Little League olha para trás ao refletir sobre a adolescência com o refrão “When we were younger, We didn’t know how it would be, We were the dumb, the wild, the free“. Desta vez num tom mais animado.

Chegado o ponto final de “Kid Krow”, Conan revela não só o seu lado mais romântico como também um otimismo comovente. The Story é a conjugação que prova o seu talento quer como cantor como compositor. Apesar do seu estilo derivar de artistas como Lorde ou Taylor Swift, é a honestidade da sua música que faz deste álbum um sucesso. E tal como o próprio refere na despedida: “It’s not the end of the story…“. Assim seja, Conan Gray.

Bernardo Freire

Rating: 3 out of 4.

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