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Porque A Arte Somos Nós

Carl Gustav Jung nasceu na Suíça, em 1875. Foi, juntamente com Freud, um dos pais fundadores da psicologia moderna. De facto, a história lembrar-se-á dele, sem qualquer dúvida, como um dos maiores médicos de todos os tempos.

De volta à sua infância, Carl Jung afirmava que se lembra de ter tido pela primeira vez consciência de si mesmo aos onze anos. Dizia que essa transição foi quase como sair de uma névoa e ganhar uma luz que lhe disse, finalmente, “eu sou o que sou“. Questionando-se sobre o que era realmente antes, dizia que não se sabia diferenciar das outras coisas em seu redor, sendo apenas uma no meio das outras.

Os seus pais pertenciam à época posterior à Idade Média, guardando em si mesmas um pensamento que regia a vida das pessoas há mais de mil e oitocentos anos. No entanto, na sua visão, sempre foram bastante liberais e tolerantes. Considerava também que foi precisamente esse momento de auto-revelação que lhe permitiu entender o grau de falibilidade das opiniões e crenças dos seus pais. Nesse prisma, gostava de evidenciar uma certa relação entre medo e imprevisibilidade na forma como lidamos com outras pessoas na nossa vida.

Sigmund Freud

Jung considerava-se dantes uma pessoa solitária e afirmava ser difícil responder à pergunta se acreditava, ou não, em Deus. Sobre o que o levou a tornar-se médico, dizia que tinha sido primeiramente uma escolha meramente oportunista. Originalmente, queria ser arqueólogo, mas não tinha dinheiro, os estudos eram muito caros. Nesse sentido, o seu segundo amor era a Natureza.

O seu avô era médico, então aliada a essa linhagem, Jung sempre teve em mente fazer algo que fosse realmente útil aos seres humanos. Por outro lado, na sua infância, tentava sempre evitar situações críticas (violência), porque dizia não confiar em si mesmo. Ademais, a sua escolha por uma especialização em psiquiatria partiu de uma vontade única de unir certos aspectos contrastantes nele próprio. Sentiu, portanto, como se a ciência social e a história da Filosofia, duas correntes distintas, se tivessem unido numa só.

O primeiro contacto com Freud deu-se através de uma conversa longa e profunda em 1907, da qual se seguiu, a partir daí, uma amizade pessoal. Assim, via em Freud uma “natureza complicada“, no sentido em que era praticamente impossível, segundo Jung, discutir algo com ele realmente a fundo, pela sua teimosia.

No entanto, acabaria por romper teoricamente com Freud, após a publicação do seu livro “A Psicologia do Inconsciente“. A sua crítica fundamental inerente a esse desvio científico teve que ver, fundamentalmente, com “a negligência de Freud para com as condições históricas do Homem“. Para Jung, o facto de sermos objectiva e amplamente preconceituosos e influenciados por ideais históricos e dominantes tem um contributo feroz e decisivo para a Psicologia (“Não somos de hoje ou de ontem; somos de uma era imensa“). Após inúmeros estudos e pesquisas, chegou à conclusão de que poderia existir, realmente, uma camada impessoal na psique humana. Ou seja, que há em nós um inconsciente que está além do que nos é pessoal.

Sobre o seu próprio tipo psicológico, Jung dizia que certamente se caracterizava pelo pensamento. Apesar de considerar que desde cedo tinha uma enorme intuição, assumia que sempre teve dificuldade em lidar com o sentimento, na sua relação com o mundo, por achar estar sempre em discordância com a realidade das coisas.

Sobre os sonhos, Jung dizia que hoje em dia estamos cheios de apreensões e de medos, o que não nos permite antecipar o significado inerente ao que sonhamos. Desta forma, via uma mudança iminente na nossa atitude psicológica, como resposta a uma necessidade maior de compreender a natureza humana, pois, segundo o próprio, “o único perigo real existente é o próprio Homem“.

Entrevista a Carl Jung em 1959

Considerava, ainda, óbvia a ideia de que o Homem precisa de conviver com o conceito de pecado e de mal para sobreviver, precisamente porque faz parte da sua natureza, não acreditando, portanto, que o ser humano alguma vez se desviaria do padrão original do seu ser. Por outro lado, Jung considerava que a morte era psicologicamente tão importante quanto o nascimento, vendo-a como uma parte integrante da vida. Assim, para Jung, “Se a psique humana não é obrigada a viver apenas no tempo e no espaço, e obviamente não vive, então a psique humana não está sujeita a leis, o que indica uma continuação prática da vida, uma espécie de existência psíquica além do tempo e do espaço“.

Ou seja, é óbvio que todos nós iremos morrer, no entanto, para Jung, há algo em nós que aparentemente não acredita nisso. E, para o próprio, isso não é algo que prove necessariamente alguma coisa mais, simplesmente é assim. Defende que, se pensarmos de acordo com as linhas da Natureza, estaremos a pensar adequadamente.

Sobre o futuro da humanidade, Jung antecipava uma reacção contra a dissociação colectiva que ainda vivemos, uma vez que, para ele, o Homem é incapaz de suportar para sempre a sua própria anulação. Isto porque, segundo Jung, “O Homem não pode suportar uma vida sem significado“.

Como podemos ver, as ideias de Carl Jung vieram dar um novo sentido à Psicanálise, complementando ou divergindo de Freud, o que é certo é que temos nele um expoente de intelectualidade, de sabedoria e de instinto revolucionário, a vários níveis. O seu grande sonho era poder fazer, verdadeiramente, a diferença no “mundo terreno” – e a verdade é que o conseguiu.

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”

– Carl Jung

Tiago Ferreira

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