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Porque A Arte Somos Nós

A influência inegável da máquina cinematográfica de Hollywood estandardizou que bom cinema é aquele que está repleto de drama, personagens complexas ou matérias sociais relevantes. Algo que é continuamente perpetuado pelos Óscares, que privilegiam um formato de cinema que frequentemente não está alinhado com o que de facto se faz de melhor na sétima arte. Mesmo em termos estruturais as fórmulas corriqueiras condicionam as perspetivas que temos aquando a visualização de um filme.

Com “La tendresse”, a cineasta e argumentista francesa Marion Hänsel oferece uma comédia dramática refrescante, fora dos padrões que os especialistas da Academia celebram. A história começa com a queda de Jack (Adrien Jolivet), enquanto esquiava nos Alpes franceses com a sua namorada (Margaux Chatelier). O evento provoca a reunião necessária entre os pais, Lise e Frans (Marilyne Canto e Olivier Gourmet), que estão divorciados há 15 anos. Combinam ir juntos de carro até aos Alpes para retomar o filho a casa, na Bélgica. No caminho, o casal de outrora recomeça a interagir com a naturalidade de quem já esteve enamorado, com a ressalva de que não há grandes manifestações de constrangimento, nervosismo ou até ressentimento.

Marilyne Canto e Olivier Gourmet

Esta é a primeira vez que Hänsel assina um argumento sozinha e sem recorrer à adaptação de qualquer obra literária. O resultado é um filme que faz jus ao seu título. Uma obra leve, bem-humorada mas principalmente com uma bondade de espírito que não se vê no cinema todos os dias. Isto porque o cinema em termos estruturais condiciona a pensar o pior. A pensar que a certo ponto algo de grave vai acontecer. Aqueles mecanismos que despoletam aventuras ou intermedeiam o ponto alto no final do segundo ato. O que faz com que imagine algo perverso quando em cena estão fechados num teleférico Frans e uma jovem menina, ou ainda outra cena onde Lise aceita dar boleia a um senhor desconhecido.

É certo que os paralelismos que tracei foram com filmes de horror, nomeadamente “O Prodígio” (2019) e “Massacre no Texas” (1974), assim como o meu imaginário tem o seu quê de macabro. Mas a ideia central mantém-se. É também expectável nos dramas e nas comédias que existam momentos que mudam a vida das personagens. No entanto, “La tendresse” recusa essa ideia com convicção. Coloca os holofotes em pequenos momentos: relações entre pais e filho, namorado e namorada e, por fim, entre os próprios pais. Nestas afinidades, o filme examina o carinho que têm uns pelos outros, seja pelo filtro de um amor antigo, como pela esperança reduzida de um amor recente cujas probabilidades de funcionar são escassas.

Com isto não quero dizer que a narrativa seja inconsequente ou desprovida de intercorrência, muito pelo contrário. É sem dúvida pouco escandalosa e, tal como a maioria dos episódios da nossa vida, também não é o pináculo do entretenimento. Os seus eventos corriqueiros funcionam apenas para vermos como é que as personagens reagem, são práticos, nada mais. Funciona porque vai contra a ordem narrativa pré-estabelecida e transmite as suas mensagens de maneira inesperada. Valoriza a importância das relações saudáveis e da tolerância para com o outro, sendo que no final retém a sensação de que tal como sorrimos para o filme, o filme sorri-nos de volta.

Bernardo Freire

Rating: 3 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

2 thoughts on ““La Tendresse”: O surpreendente aconchego do vulgar

  1. marcelopereirarodrigues diz:

    Parabéns pela resenha convidativa ao filme. O cinema francês tem apresentado excelentes filmes!

    1. Bernardo Freire diz:

      Muito obrigado pelo comentário! Desde sempre que o cinema francês é uma referência e considero importante chamar à atenção para algumas gemas.

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