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Porque A Arte Somos Nós

Júlio Paz era um escritor profissional. Seu último romance havia sido um sucesso, de público e de crítica, e sua agente literária, junto a editoras de diversas partes do mundo, havia traduzido a obra para diversos idiomas. O livro catapultara a carreira do escritor, pois os dez livros lançados anteriormente não fizeram tanto alarde e apenas mantiveram o autor no lusco-fusco, mas a fama tem lá os seus percalços.

Não que Júlio desgostasse do paparico repentino. Das viagens aéreas na classe executiva. Dos hotéis cinco estrelas. Das entrevistas e das reportagens que saíam sempre nas primeiras páginas dos cadernos culturais dos principais jornais da Alemanha, França, Itália, Noruega, Portugal, Rússia, Suécia, Canadá, Cuba, Estados Unidos, México, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Argélia, Marrocos, Tunísia, Emirados Árabes Unidos e outras partes do mundo.

O livro ganhara versão para o cinema e estreara na Broadway e no mundo inteiro, se abrissem a torneira das pias, primeiro saía um informe do livro, só depois a água. Ganhou diversos prémios mundo afora e diziam que seria o primeiro brasileiro a vencer o Nobel da Literatura.

Passados dois anos dessa roda viva, aproveitando o silêncio das férias natalinas, Júlio se viu só pela primeira vez depois de muito tempo. Não era casado e as publicações sensacionalistas havia lhe impingido a pecha de onanista e uma série de outras idiossincrasias. O sucesso de um escritor sempre acarreta maledicências e invejas, e ele, sendo filósofo, já investigara essa característica da alma humana, lembrando-se sempre do adágio: “Só se joga pedras na árvore que dá frutos”.

Navegava pela Internet e se deparou com uma convocação para um concurso de contos literários, e isso o remeteu ao início de sua carreira, se bem que à época nem imaginava que estivesse iniciando qualquer coisa, que dirá uma carreira literária. Isso disparou o gatilho e foi quando se deu conta de que há mais de três anos não lançava algo novo, vivendo apenas do último romance que o lançara no rol dos grandes escritores mundiais.

Um desejo criativo o motivou a escrever novamente. Mas não podia ficar ali, pois, mesmo se tratando de um sítio afastado cerca de quinze minutos da cidade, a sua agente o reencontraria no primeiro dia útil do ano, com as suas exigências, os seus prazos, os seus compromissos. Precisava de um esconderijo. Muniu-se de papel, lápis e canetas, juntou algumas roupas e passou na mercearia da cidade solicitando que entregassem seus mantimentos de dez em dez dias, levando provisões que o sustentariam durante esse período.

Uma exigência ao dono da mercearia e aos seus funcionários: não dizer a ninguém a sua localização. Brincou que caso eles fornecessem o paradeiro, se vingaria dando um tiro de espingarda no peito deles. Assim partiu feliz o nosso escritor, retirando-se do mundo com a mesma elegância de um J. D. Salinger.

J. D. Salinger

Sem relógio, calendário, computador, telefone celular, agenda, despertador, rádio e televisão, o cenário clássico no rancho se constituía de nosso escritor sentado em frente a uma folha de papel em branco e os seus lápis e canetas. Aos poucos, foi se depurando. Sem inspiração alguma, não passava da primeira frase apenas e ficava reverberando ideias, escrevendo fragmentos a esmo e o seu estoque de folhas estava comprometido. Na próxima vinda do vendeiro, encomendaria mais papel.

O ar puro do retiro, o mugir de uma vaca ao longe, o barulho do regato que passava ao lado da cabana, o canto da cigarra e a vista de um céu estrelado com todo o seu esplendor foram permeando o espírito de Júlio. Sem horas para dormir e se alimentar, sem regras estabelecidas e nem prazos a cumprir, foi admitindo a verdade que estava camuflada há tempos: tudo o que ele precisava era de paz e sossego, afinal, não se conquista a fama sem se perder de todo a integridade, e no frenesi literário ele estava se sentindo fragmentado.

Cansava-se das longas sessões de autógrafos, de posar para selfies de leitoras sorridentes que o tratavam como a um popstar, e sendo o seu último romance um drama bastante existencial, não compreendia o motivo de as pessoas sorrirem ao posarem com ele. Admitiria sem estranheza se as pessoas estivessem chorando, ou ao menos com semblantes circunspectos e reflexivos. Essa divagação o levou à constatação do quão efémera é a fama, com todos os seus aborrecimentos.

Os dias se transformaram em semanas e daí em meses, consequentemente anos e quando deu por si, nosso Salinger moderno estava encerrado em sua mesa, dispensara as ferramentas de escrever e sentira que o conto havia sido refletido durante o claustro a que se permitira. Inédito para si mesmo, viveria esse conto com toda a sua magnitude, não compartilharia nada do seu ser e se fecharia definitivamente em torno de si mesmo.

Foi com espanto e felicidade que observou as raízes que prendiam os seus pés naquele lugar específico. Mesmo que quisesse sair, não conseguiria mais. Não precisava mais alegar desculpas para si mesmo, sua voz fora silenciada e mudo apenas queria curtir a inércia, quebrada apenas pelo vento e chuva que açoitavam seus galhos, digo braços.

Júlio encontrou enfim a paz há tanto perdida.

Marcelo Pereira Rodrigues

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