OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Quero falar-vos de Frida Kahlo. Sinto que é preciso esclarecer a preciosidade desta ilustre Mulher, que viveu, sofreu, sorriu, amou e transbordou arte da forma mais intensa que conheço.

Ultimamente tenho observado o rosto de Frida estampado em t-shirts, sacolas, brincos, e outras coisinhas assim e penso na fatalidade do marketing, na crueldade das ondas da moda que apenas visam os lucros e esquecem a arte. Passam então importantíssimas figuras na cultura da Humanidade a servir de marca barata para ter estilo. Espero que ao menos seja esta mulher conhecida pelo seu contributo à arte, e não comprada porque está na moda “usá-la”.

Frida foi uma pintora mexicana, feminista e de personalidade Forte! (sim o “forte” aqui leva F maiúsculo, bem como o “mulher” M maiúsculo ali em cima).

A sua força de vontade fez com que superasse obstáculos incríveis, que também lhe trouxeram uma compreensão profunda de si mesma e lhe conferiu uma sensibilidade extraordinária. Frida chamava a atenção com a sua irreverência e através da forma livre que tinha de viver. Brotou das suas longas estadias em hospitais a intensificação da sua arte, olhando-se no espelho que tinha pendurado em cima da sua cama, desenhava-se e, qualquer um ao observar os seus quadros, rende-se à sua intensidade.

Frida Kahlo (1910-1954)

Pinto-me a mim mesma porque sou

sozinha, e porque sou o assunto que conheço melhor

A Minha pintura carrega em si a mensagem da dor

É fácil pensar na obra de Frida Kahlo como algo carregado de sofrimento e tristeza, com certeza esta senhora passou muitos e maus bocados, mas ainda assim não consigo reconhece-la nesse registo. Os quadros de Frida mostram-me uma cabeça erguida contra tudo o que a vida lhe pode atirar para cima, da artilharia mais pesada que pode haver. Estes são a prova de uma força imensurável, de uma paixão pela vida desmedida e por todas as coisas que a Terra tem para oferecer.

Os quadros em que a artista se pinta mais feliz, têm animais à sua volta: era desta forma que amava, livre e abertamente, mas sem se esquecer da importância da sua identidade e de que o amor deve ser dado, e não conquistado.

Frida Kahlo teve poliomielite aos seis anos de idade e ficou com sequelas dessa doença, mais tarde sofreu um acidente aos 18 anos que se seguiu de uma longa recuperação que incluiu cerca de 30 cirurgias. Quis muito ser mãe, mas não conseguia ter filhos. Teve três abortos devido ao acidente que sofrera em que foi perfurada por um ferro que lhe atravessou a barriga e a zona pélvica. De inúmeras peripécias da vida, estas são algumas pelas quais Frida teve de passar.

O grande amor da sua vida também não foi a história mais romântica de todas, na verdade foi mais uma prova de fogo para a artista. Diego Rivera era já um muralista conhecido quando Frida foi ao seu encontro para lhe mostrar os seus quadros, e desde aí Diego tornou-se admirador da sua arte e apostou nela como artista. Os dois casaram-se e tornaram-se próximos, não só na sua relação afetiva como também na política, sendo que pertenciam os dois ao Partido Comunista Mexicano.

Contudo, Diego mostrou-se infiel ao matrimónio com Frida com muita regularidade, tendo inclusive traído a sua mulher com a sua cunhada. Depois de tantas traições, a própria artista passou a ter relações extra-conjugais tanto com homens quanto com mulheres, o caso mais conhecido foi com Leon Trotsky.

Frida e Diego tinham uma relação complicada e por vezes abusiva emocionalmente. Chegaram a divorciar-se, mas dois anos depois do divórcio casaram novamente e viveram o resto das suas vidas juntos, da mesma forma que viveram a vida toda: com muitas discussões.

Os quadros de Frida Kahlo são uma autêntica autobiografia e uma forma que esta encontrou de exteriorizar aquilo que sentia. Um dos quadros que considero mais impactante é o que retrata a perda do seu segundo filho, “Hospital Henry Ford”.

“Hospital Henry Ford” (1932)

Frida está deitada numa cama do hospital que deu nome ao quadro, com lágrimas a escorrerem-lhe do rosto, ainda inchada e ensanguentada, segura na sua mão fios vermelhos que lembram cordões umbilicais e que conduzem a elementos causadores da perda do seu filho, e que são o motivo da sua angústia.

Estes fios estão presos a um caracol que representa a lentidão do aborto, um feto masculino que representa o seu filho desejado, um gesso ortopédico da zona pélvica, que a artista teve de usar devido às suas fraturas na coluna vertebral, uma orquídea que representa o útero, um objeto metálico que era usado para fazer a limpeza dos resquícios do aborto e, por fim, o ilíaco, o osso da bacia de Frida que foi afetado no acidente.

Todos os quadros desta espantosa artista têm uma carga enorme de expressividade. Deixo este como uma amostra do seu trabalho para aguçar a curiosidade da procura por este legado incrivelmente emocionante.

Pessoalmente, sinto-me muito próxima a Frida Kahlo. Ler sobre a sua história, e ter o privilégio de testemunhar a sua arte ensinou-me muito sobre mim e elucidou-me na minha visão do mundo, na forma como me relaciono com as pessoas e como lido com a vida.

Sinto que não tenho as palavras necessárias, mas o meu ponto central é o seguinte: a arte tem o poder de fazer encontrar o que precisamos, sem ter a ganância de querer lucrar com as nossas conquistas.

Frida Kahlo foi crucial no mundo da arte e só lhe tenho a agradecer por isso.

“As duas Fridas” (1939)
“Sem Esperança” (1945)

Júlia Stefanato

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: