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Porque A Arte Somos Nós

É preciso ter muita delicadeza quando a Arte visa mostrar ao mundo aspectos tão ferozes (visual e emocionalmente) – para algumas pessoas até demasiado sensíveis para serem exploradas – como o de uma violação. Nesta (mini-)série “Unbelievable” (2019), o espectador fica, literalmente, sem palavras.

Primeiro, esta aborda de forma brilhante toda uma investigação à volta de várias violações (de um violador em série); segundo, dá-nos toda uma panóplia de actores capazes e já reconhecidos pela crítica mais conceituada para elevar a obra a outro patamar; terceiro e último, mas não menos importante, a forma crua e magnífica como mostra o que é estar no terreno e como a carreira de um polícia depende, severamente, de um estudo minucioso de tudo o que possa ser uma pista.

Por vezes a família é deixada em segundo plano, porque as vítimas passam a ser a nossa família e dependem deles para sobreviver ao trauma e, claro, muitas vezes, a solução de um caso está na intuição, no chamado feeling, mesmo que por vezes ilógico.

Esta série aborda e enfoca a vida de Marie Adler (interpretada por Kaitlyn Dever, conhecida pelo seu mais recente papel em “Booksmart: Inteligentes e Rebeldes“, de 2019) e é baseada em factos verídicos. Certo dia, um sujeito mascarado e com todo um equipamento detalhado invade a casa da jovem de 16 anos, para proceder a uma violação sexual. No fim, Marie, assustada liga para a Polícia, mas já na esquadra, ao prestar declarações, deixa os responsáveis com dúvidas quanto à veracidade do acontecimento. Marie, pressionada e quase que praticamente obrigada a dizer que, afinal, nada se passou, diz que é mentira.

Kaitlyn Dever no papel de Marie Adler

Passado um ano, duas detectives – Karen Duvall (interpretada por Merritt Wever) e Grace Rasmussen (interpretada por Toni Collette, conhecida pelo seu papel mais recente em “Hereditário“, de 2018) pegam em vários casos idênticos, incluindo o de Marie, para encontrar o violador, e é isto que espoleta a narrativa.

É fascinante como é deixada a dúvida no espectador quanto a se a história é, de facto, real ou simplesmente uma memória construída por Marie, uma jovem que não teve uma infância fácil, entre orfanatos, famílias de acolhimento e sem grande sorte na sua vida. Toda esta história fez com que a maioria dos seus mais próximos ficasse contra ela, a criticasse e se afastasse dela, deixando-a sem amigos, sem qualquer apoio nem conforto.

Este argumento escrito, essencialmente, por Susannah Grant e Michael Chabon (os criadores) dá muito que pensar, e é bastante eficaz e metódico quanto a tudo o que envolve uma história desta índole. É sagaz na forma como explora, em timelines distintas mas em simultâneo, a investigação e a vida da jovem. Como consegue deixar, de um episódio para o outro uma linha solta para motivar a reflexão e como é capaz de replicar um caso quase de forma perfeita, numa escolha minuciosa de actores e cenários, sem se prolongar demasiado, e indo sempre de encontro ao essencial (mini-série de oito episódios).

Merritt Wever e Toni Collette

Além de mostrar aquilo que uma violação pode fazer à vida de uma pessoa, sobretudo à de uma mulher, isto é, todas as marcas e traumas que deixa para trás de forma a que aquele momento horripilante da sua vida se sobreponha, e faça a diferença, sobre todos os outros, mesmo que positivos, consegue dar uma aula de psiquiatria, no sentido em que demonstra, com profundidade, a forma como um sociopata pensa, o que está à procura, aquilo que deixa para trás, as suas inquietações, o que o motiva, etc.

A realização está, igualmente, fascinante, com os créditos a irem, fundamentalmente, para Lisa Cholodenko e para Michael Dinner, que foram capazes de transpor do papel para a realidade esta vertente difícil de enquadrar. Num mundo onde queremos encontrar paz, constância e algum conforto na Arte, depararmo-nos com uma história que não é para qualquer “estômago”, mas que, no pós-visualização, sentimo-nos seres maiores que ontem, defensores dos direitos humanos, femininos, defensores de uma paz e humanidade comum, onde a segurança, o bem-estar, conforto e o respeito por todos seja o maior dos nossos objectivos. Sempre com esta ideia na retina: depois da tempestade, virá a bonança.

Tiago Ferreira

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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