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Porque A Arte Somos Nós

A arte vive e sobrevive de contextos, e resulta de uma tentativa lúcida e humilde de contar uma verdade, fugir à rotina, à realidade, ao mundo. Tanto quer fugir do mundo como o descrever, e numa altura como esta de caos, será que a arte (cinema, música, pintura, etc.) é a resposta? Claro que, neste momento, mais do que investir no reportório intelectual mais formal, precisamos de nos distrair, sendo produtivos. Alguns nem precisam de o ser. Com isto quero apenas levantar a questão: será a arte a resposta para a catástrofe, que numa altura de ordem não é, muitas vezes, passível de ser decifrada?

Julgo que neste momento em que precisamos de uma distracção generalizada, isto é, algo que nos ocupe o tempo, não basta saber aquilo que queremos que nos afecte intelectualmente, uma vez que, quando estamos em anarquia, os nossos critérios enfraquecem e deixamos de levar as coisas tão a sério. É preciso entender que a arte que temos à nossa disposição, e sobretudo no contexto actual em que vivemos (temos tudo à distância de um clique e acesso amplamente facilitado à informação), nasce de uma necessidade absurda de dizer algo. Ora, será que a fronteira entre a criatividade e o entendimento está na estabilidade emocional do contemplador?

Muitas medidas foram tomadas para dar ao público, nesta altura, todo um leque de soluções, sendo a maior parte destas pagas, surgiram num formato gratuito (como museus online ou filmes disponibilizados por plataformas que exigem subscrição), o que mostra que: 1.º em caso de catástrofe, todos nos alinhamos para concertar a ordem; 2.º quando o mundo pára, precisamos do entretenimento que a arte nos dá para fugir à realidade e para nos dar a devida estabilidade; e 3.º tudo isto mostra que temos tanta, mas tanta opção nos dias de hoje para nos enriquecermos humana e intelectualmente, que por vezes escolhemos viver em ignorância, pois inicialmente é mais cómodo. Contudo, posteriormente vai ser, acreditem, muito mais satisfatório.

Num mundo caótico, a tese fundamental a ser partilhada é que as coisas imateriais (arte, amor — também ela uma forma de arte) chegam para nos ajudar a ajustar a nossa individualidade e a nossa casa interior, para aí, e só aí, “exigir” do mundo a devida resposta para com um deserto de estabilidade financeira, emocional e de recursos (biológicos e afectivos).

Aceitemos a crise e lutemos juntos, de forma artística ou até menos poética, para derrubar este surto.

Tiago Ferreira

Fresco por Miguel Ângelo, “A Criação de Adão” (1508-1515)

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