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Porque A Arte Somos Nós

Dentro do fantástico, “Dead Dicks” apresenta-nos um problema não muito difícil de resolver, onde morrer consegue ser algo simplesmente banal. Que o diga Richie (Heston Horwin), que teve de sair três vezes de dentro de uma vagina presa à parede do seu quarto (!). A película começa exatamente com um suicídio por parte do personagem principal, e a razão pela qual o fez é ainda mais surpreendente.

Richie é um jovem artista que sofre de bipolaridade, sendo que para garantir a sua sanidade, este tem a ajuda da sua irmã Becca (Jillian Harris), uma enfermeira recentemente aceite na escola para concluir os seus estudos. Contudo, tal acabou por não acontecer… Após tentar contactar o seu irmão, sem sucesso, Becca decide visitar Richie ao seu apartamento. Para sua surpresa, esta encontra três versões do seu irmão… morto. Toda a teoria à volta do porquê de isto ter acontecido esteve ao encargo de Chris Bavota e Lee Paula Springer – realizadores e escritores desta obra. A narrativa resume-se a uma encruzilhada onde o fantástico se cruza com uma história dramática e terna entre irmãos.

Matt (Matt Keyes), o vizinho que se queixa do volume da música (sempre que Richie se preparava para se suicidar) e das vibrações (o renascer), não só ajuda a transportar os Richie’s mortos, como também acaba por ser vítima desta estranha ressuscitação. É graças a ele que Richie chega à conclusão de como quebrar o ciclo. Obviamente não podemos deixar de valorizar o papel de Becca na história, pois esta sacrifica a sua carreira e felicidade em prol do seu irmão. Esta acaba por ser apanhada nas malhas da loucura de Richie, tornando-se a certo ponto uma vítima de todo um fenómeno inexplicável. Embora os papeis do elenco não sejam extremamente exigentes, destaco Jillian Harris pela sua emoção, naturalidade e entrega em frente à câmara. Esta funciona como uma guia para o espectador, através da realidade inventada por Bavota e Springer.

O filme tem uma semiótica bastante rica. O acto de renascer acontece através de uma vagina, a porta que nos traz a todos ao mundo, a última etapa antes de sofrermos o trauma de nascer; Richie volta ao mundo sempre nu, um acto de limpeza e pureza; O facto do ciclo só poder ser quebrado através de uma morte que envolva a destruição do cérebro – desvalorizando o físico, e mostrando que este não tem valor/influência enquanto o nosso intelectual for medíocre ou incapaz de ultrapassar os erros do passado. Conseguimos por vezes associar este estilo de filme às obras de David Lynch, que procura sempre dar um enredo “real” dentro de uma dimensão fantasiosa. “Dead Dicks” consegue tal feito, mas não explora suficientemente o mundo fora do prédio de Richie. É verdade que o centro da acção é dentro daquelas paredes, mas certas arestas relevantes da história passam-se fora daquele mundo peculiar, sendo que as personagens teriam outra preponderância para o espectador caso houvesse um maior background histórico das mesmas.

O trabalho de cinematografia é bem executado, pois no que toca às cenas “irreais”, a exigência não era muita. A narrativa evolui de forma dramática e cómica – aqui com destaque para certos diálogos – guardando o drama mais para a fase final. Drama esse que vai ao encontro de uma solução final mais radical, mas a certo ponto esperada. Só o sacrifício pôde acabar com o sofrimento de Richie e de quem o rodeava. Tal como na nossa vida, há sempre sacrifícios a fazer, por nós, para nós, e para quem nos rodeia. Com isto, penso que a lista de ingredientes nesta obra, apesar de não ser sempre a melhor, funciona. Uma produção muito boa para um argumento suficiente.

Rating: 2.5 out of 4.

IMDB

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