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Porque A Arte Somos Nós

Parece que o mundo pode ter os dias contados. Chegou um vírus letal vindo da China que se está a alastrar por todos os continentes. As pessoas, de todo o globo, começam a temer o pior e a, finalmente, acordarem para a realidade. Foi emitido um alerta internacional em prol do combate, tratamento e prevenção desta doença. O que acontece é que há orientações para os países se ajudarem uns aos outros, e muitos ajudam — ou pelo menos tentam —, enquanto outros ignoram e só pensam em si, com medo de também ficarem infectados. Mas tudo isto é uma metáfora para algo, infelizmente, bem mais grave.

Toda esta situação, que a meu ver deve ser encarada com a devida tranquilidade, numa perspectiva colectiva, só veio mostrar que o ser humano só reage à adversidade quando ela aspira a ser letal. Quando o caso está mesmo mal parado, é aí, e só aí, que todos nos unimos em prol de uma causa, que nos subjugamos a prescindir dos nossos interesses muitas vezes, em prol de um bem maior. O que eu quero dizer com isto é que, infelizmente, as pessoas, genuinamente, não se interessam umas pelas outras. Vou ouvindo coisas deste género nos últimos tempos: “ao menos é na China; eles são tantos, não se vai perder muito”, o que demonstra, não só, que os julgamentos (irracionais) das pessoas se devolvem em contexto de inferioridade. Isto é, quando o visado está numa situação bem pior que a minha, como também que as verdadeiras preocupações do ser humano só vêm à tona quando estas lhe são mesmo familiares. Um exemplo: já pensaram se tivessem um (ou vários) familiar(es) chineses e tecessem afirmações deste género — como seria? Teriam vergonha da vossa atitude.

Quando disse que o mundo podia ter os dias contados, estava na verdade a dizer que a humanidade — ou pelo menos o pouco que resta dela —, se por um lado é capaz de se reinventar na catástrofe, por outro revela a indiferença atroz que temos uns pelos outros, quando estamos estáveis. Para nós — isto é, a maioria de nós —, a aceitação da diferença está fora da zona de conforto e só faz sentido quando sou eu a passar pela situação. Só aí compreendo o outro.

No entanto, e com isto finalizo a crónica, se precisamos de passar pelo “Coronavírus” para nos pormos no lugar do outro — e muita gente não o faz —, que este seja, caso sobrevivamos a ele, a metáfora de uma mudança permanente. Que consigamos, pelo menos uma vez na vida, e contrariando uma característica bem portuguesa, não deixar a Humanidade para a última da hora.

Ela começa hoje e nunca acaba.

Tiago Ferreira

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