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Porque A Arte Somos Nós

Do realizador de “Traffic – Ninguém Sai Ileso” (2000), Steven Soderbergh, “The Laundromat” explora o escândalo ocorrido em 2016 sobre os ditos Panama Papers – um “conjunto de 11,5 milhões de documentos confidenciais de autoria da sociedade de advogados panamenha Mossack Fonseca que fornecem informações detalhadas de mais de 214 000 empresas de paraísos fiscais offshore, incluindo as identidades dos accionistas e administradores“. Para nos guiar durante toda a narrativa, com explicações técnicas e questões morais, temos Gary Oldman e Antonio Bandeiras. O primeiro interpreta o papel do alemão Jurgen Mossack, um dos sócios da Mossack Fonseca, sendo que Banderas é o parceiro em falta, o escritor e advogado panamenho Ramón Fonseca Mora. O filme é baseado em factos verídicos.

Após uma breve introdução do que foi a evolução do dinheiro até aos dias de hoje, a história tem início com Ellen Martin (Meryl Streep) e Joe Martin (James Cromwell) a dar um passeio num ferry, que se revelaria mortal para 21 pessoas, Joe incluído. O problema dá-se quando os proprietários do barco percebem que o seu seguro era inexistente, uma burla. A partir deste momento esperamos a clássica reacção por parte de Ellen de ir contra tudo e todos, acabando no fim por salvar o mundo de uma corrupção monumental. Não é bem assim… A verdade é que assistimos ao luto por parte da viúva, querendo manter a memória do seu ex-marido viva, mas é então que entram os “homens do dinheiro”. À primeira vista, podemos pensar que Meryl Streep será o elemento central da obra, mas tal não se verifica. Esta funciona como a faísca de uma investigação que nos vai sendo narrada e, de certa forma explicada, acerca das estratégias que milhares de empresas utilizam para fugir aos impostos, branquear capitais, ou até transaccionar bens ilegais. A certa altura, a personagem de Streep é abafada pelos contos paralelos – que funcionam como resposta às perguntas que merecem ser esclarecidas perante o espectador.

Escrito por Scott Z. Burns e Jake Bernstein (também produtor executivo), este é uma espécie de documentário, um bocado à semelhança de “A Queda de Wall Street” (2015), que aborda a crise imobiliária norte-americana de 2006-2007. Soderbergh e a sua equipa de produção tentam fazer dos dois principais protagonistas os mestres de cerimónia. Em certa medida, não podíamos exigir melhores professores. Tanto Banderas como Oldman são dois actores respeitados e com um historial prestigioso, de forma que, a sua imagem e caracterização fazem destes dois multimilionários os guias perfeitos para nos tentarem desmistificar esta matemática de leis e contratos. À semelhança do filme acima referido, “The Laundromat” comunica connosco na primeira pessoa, de forma a criar uma maior proximidade não só com os actores, mas também com os próprios acontecimentos. Os dois “homens do dinheiro” cumprem a sua obrigação, com o seu charme e presença, são as duas personagens principais de um filme que não procurou destacar qualquer tipo de individualidade. Uma actuação segura, portanto.

A narrativa distribui-se por capítulos, todos eles com os seus protagonistas a acabar da mesma forma: em apuros. Num desses episódios, Charles (Nonso Anozie), confronta a sua filha com um segredo que ao ser revelado, destruiria a sua família. Este, em poucos minutos, põe fim à ingenuidade da mesma, obrigando-a a ser adulta e a ver o mundo de outra forma. Como? Com uma contra-proposta de 20 milhões de dólares. Como seria connosco se estes valores estivessem em cima da mesa? O resultado não se revelou muito proveitoso, pois graças a um sistema incontrolável de empresas e sub-empresas fictícias, os 20 milhões passaram a 100 dólares. Apenas mais uma fraude.

Meryl Streep nunca desaparece totalmente da nossa vista, acabando sempre por estar ligada às acções decorrentes desta teia de acontecimentos. A última aparição tem mesmo uma vertente cómica, tentando assim o filme dar alguma justiça ao seu final. A verdade é que não podemos ver as coisas bem por aí: este é apenas um retrato do que realmente se passa pelo mundo fora, nos círculos do poder e do dinheiro, onde as leis acabam sempre por favorecer os que mais têm. É uma exposição e ao mesmo tempo um exercício, mas por outro lado, sentimos que a verdadeira mensagem da obra fica muitas vezes “perdida” – ou simplesmente não existe, pois cabe ao realizador contra-balançar os factos e a ficção, de modo a transmitir a sua visão da forma mais clara possível. Pois será este trabalho uma provocação à nossa ideia do que é realmente o dinheiro? Qual o seu valor? O seu peso e influência na sociedade? São perguntas que necessitam de respostas mais complexas, mas que obrigariam ao mesmo tempo recorrer a outro tipo de “atores”.

Como um todo, é uma obra pertinente, mas não memorável. A caracterização das suas personagens é positiva, mas ao mesmo tempo nenhuma se destaca. A maioria dos espaços onde decorre o filme são escritórios, ruas de um país tropical, apartamentos ou casas luxuosas. O seu elenco parece ter sido a principal cartada por parte da Netflix. Não é que Oldman ou Streep necessitem deste tipo de filmes para se realçarem, mas acaba por ser uma jogada com o intuito comercial de tornar os Panama Papers “acessíveis a todos”: um escândalo que merece explicações mais detalhadas, e acima de tudo, mais transparência. A plataforma de streaming pode ser um veículo para tal, mas não me parece que esta seja a melhor receita. Com aproximadamente uma hora e meia de duração, “The Laundromat” merece a nossa atenção, principalmente para os que se interessam pelo tema do filme. Já para outros, será talvez “só mais um filme”.

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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