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Porque A Arte Somos Nós

O filme realizado por Tom Harper conta-nos a história de James Glaisher (Eddie Redmayne) e Amelia Wren (Felicity Jones) e em como uma expedição histórica num balão de ar quente os uniu nesta aventura de cortar a respiração.

Escrito por Jack Thorne e produzido pela Amazon Studios, “Os Aeronautas” conta-nos a história de James Glaisher, um assistente na Universidade de Cambridge no século XIX, que viria a tornar-se astrónomo, aeronauta e dos primeiros meteorologistas. Este existiu mesmo e viveu entre 1809 até 1903, tendo mesmo batido um recorde ao voar mais alto do que qualquer outro Homem, em parceria com o cientista Henry Tracy Coxwell, e não com Amelia Wren, tal como é retratado no filme. Na verdade, a personagem de Felicity Jones é fictícia, contudo a componente histórica do filme é muito bem trabalhada. A começar pela sua caracterização e guarda-roupa, um aspecto muito importante que transporta o espectador para Londres do século XIX. Todo o cenário montado à volta do evento da histórica expedição de Glaisher e Wren é uma espécie circo, onde esta última mostra ser, à sua chegada, uma verdadeira entertainer. Na verdade, as pessoas não pagaram só para ver um balão levantar, pagaram para ver um espectáculo. No entanto, com o decorrer da viagem deparamo-nos com uma pessoa totalmente diferente, onde o passado tem um papel decisivo no que serão as decisões de Wren, tal como a morte do marido.

Ao longo da narrativa, que é principalmente passada no balão a gás, somos confrontados com inúmeros flashbacks que contam o passado dos personagens principais. Esta é uma forma empolgante de complementar a história, pois somos obrigados a uma ginástica mental para nos conseguirmos situar no presente da narrativa, tornando estimulante a compreensão das decisões que vão sendo tomadas no desenrolar da história. Não podemos ignorar os ingredientes que nos oferecem vários momentos de suspense durante esta arriscada aventura: os seus planos em movimento. Durante a viagem, à medida que o balão vai subindo, há um crescente de novos desafios e contrariedades, às quais Amelia é responsável pela parte prática, deixando a teoria para Glaisher. Nesta fase somos brindados com planos abertos imersivos e com um trabalho de fotografia notável, pois desde borboletas até ao silêncio absoluto dos ceús, o espectador está realmente a viver a viagem. Mas nem tudo corre como planeado, pois as dificuldades sentidas pelos dois corajosos viajantes foram bastantes. Tom Harper é o culpado pela intensidade destas cenas, com planos em primeira pessoa nas alturas mais críticas, tais como o momento em que uma corda agarra Amelia à vida no meio de uma tempestade, ou quando esta inconscientemente cai do cimo do balão gelado e os seus rodopios são sentidos por quem está na cadeira. Já Glaisher, por não levar roupa apropriada à temperatura sentida em elevadas altitudes (-15 ºC), simplesmente desaparece em certa parte da narrativa. Este último é um cientista muito pragmático e pouco dado ao imprevisível, ao contrário da sua companheira de viagem, que por ter perdido o marido no passado em circunstâncias idênticas ao desta aventura, é uma pessoa crente no que vê e sente, contrariando os números e os instrumentos de Glaisher.

Apesar da sua base factual e histórica, a narrativa acaba por nos apresentar alguns momentos mais fantasiosos. Situações limite vividas pelos personagens funcionam como uma espécie de tentação para quem está a ver o filme, fazendo-nos libertar adrenalina e até alguns sons estranhos. Contudo, a conclusão é quase sempre a mesma, algo do género “quase que corria mal, mas não”. A intensidade dos momentos-chave é sempre paralela à medida que o balão sobe, fazendo-se adivinhar uma chegada algo repentina e um final tranquilo.

No que toca ao resto do elenco, Himesh Patel (John Trew) tem um papel bastante secundário, sendo este mais relevante no passado de Glaisher. Pouco mais há a realçar, pois existe um fosso entre Eddie Redmayne e Felicity Jones comparativamente ao resto dos atores. Contudo, Eddie Redmayne tem um papel bastante seguro, pois apesar da sua versatilidade em papeis históricos, este não é o que mais se destaca, apesar da sua caracterização estar irrepreensível na representação de um homem da Ciência do século XIX. Felicity Jones acaba por ter um maior destaque, pois esta emprega uma traço pessoal forte e intenso, fazendo de Amelia Wren uma mulher corajosa e determinada, uma líder que balança a passividade de James Glaisher.

Esta é uma obra que vale pelo seu todo, onde a principal arma está no seu jogo de emoções ao longo da narrativa, aliado a um trabalho de filmagem extraordinário. Diria mesmo que a tarefa mais fácil foi articular uma história aos personagens principais e arranjar uma forma interessante de a contar. Nomeadamente, trocando Henry Tracy Coxwell por Amelia Wren de forma a ir ao encontro dos padrões hollywoodescos na relação “homem-mulher”, que por vezes busca uma faceta romântica em toda esta aventura, outro ingrediente essencial para um público mais sentimental. Com a aproximação dos Globos de Ouro e dos Óscares, este não é um filme capaz de competir pela maioria das categorias, apesar de este poder surpreender na categoria fotográfica. Recomendo a visualização de “Os Aeronautas”, principalmente àqueles que tenham curiosidade em perceber como era viajar de balão no século XIX, ou até para desmistificarmos um pouco o início das previsões meteorológicas e a sua devida importância.

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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