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Porque A Arte Somos Nós

Estamos no último dia de novembro de 2019 e decidi, na companhia dos meus pais, ir visitar o famoso MAAT, aproveitando assim da melhor maneira uma curta viagem por Lisboa. O aspecto exterior do museu é por si só algo carismático e único, com um design contemporâneo, este apela à simplicidade – pois ainda bem que assim é, a luz sobre o rio Tejo iluminando ao longe o Padrão dos Descobrimentos faz desta paisagem uma das mais belas do nosso país.

O início desta visita dá-se na Galeria Oval, um espaço enorme capaz de receber a obra mais obsoleta de sempre a nível de escala, mas esquecendo esse pormenor, a instalação em exibição pertence a Angela Bulloch, com o nome de “Anima Vectorias”. Esta “alia a investigação desenvolvida pela artista britânica no domínio da percepção do espaço, do tempo e da virtualidade às particularidades espaciais e acústicas deste espaço expositivo.

Aqui somos confrontados com luzes, ecrãs, avatares, projecções ou realidade simulada. A artista busca uma provocação quanto ao conceito de Arte Contemporânea, levando o público a questionar-se do porquê das coisas. Aceitei essa provocação e senti-me dentro de uma realidade paralela, pois os nossos sentidos são transportados para este conceito de espaço alternativo onde recebemos inúmeros estímulos e somos confrontados com seres digitais criados à nossa imagem, confusos como nós nesta linha temporal que é o passado, o presente e o futuro. A repetição destas rotinas cria uma ligação ao nosso estilo de vida contemporâneo – um livro arbítrio de repetições.

Outro destaque desta visita centra-se em “Playmode”, situado na Galeria Principal, é um trabalho de vários artistas, como por exemplo Brad Downey, Gabriel Orozco e Ana Vieira. “Desde muito cedo, os artistas compreenderam o poder de transformação do jogo, integrando-o nas suas com propósitos distintos – evasão à realidade, construção e transformação social, subversão ou crítica dos próprios mecanismos de brincadeira e jogo.” Uma das obras, que consistia em meter auscultadores e olhar para uma televisão, chamou-me particularmente à atenção pela sua simplicidade.

Esta consistia numa gravação live de um jogador de “Counter-Strike” (jogo de tiros em primeira pessoa) que se limitava a não ‘matar’ os jogadores da equipa adversária. Este, no chat, simplesmente dizia para não o matarem, afirmando ser um artista e questionando o porquê de todo aquele sangue. De uma forma bastante simples, o artista questiona todo o propósito do jogo, tecendo uma dura crítica à violência gratuita.

Por eu já ter jogado também esse mesmo jogo, questiono o seu fim. Tendo em conta a preponderância do acto de jogar, de bebermos dessas estratégias e até de criarmos sentimentos alusivos àquele estado de espírito, não será algo macabro de se fazer com desconhecidos do outro lado do mundo? Temo que por vezes muitas pessoas retirem destes desafios apenas o lado negativo.

Para além desta provocação, “Playmode” oferece-nos vídeos de instalações em espaços públicos ou as bandeiras dos Estados Unidos da América e da China, manipuladas – no caso dos EUA as estrelas são substituídas por likes do Facebook, uma alusão ao papel da rede social na eleição de Donald Trump em 2016, enquanto que no caso da China as cinco estrelas passam a três e meia, uma crítica ao novo sistema nacional de acesso ao crédito, o qual é disponibilizado consoante a reputação do indivíduo (como no episódio da série “Black Mirror”, “Nosedive”).

Como se pode perceber, estava realmente a desfrutar desta visita, e nada melhor do que nos aparecer algo totalmente diferente e inesperado. Aqui guardo lugar para mencionar a instalação de João Pedro Vale e de Nuno Alexandre Ferreira, “Ama como a Estrada Começa”. Esta “parte de uma investigação realizada em Paris, na residência artística La Cité internationale des arts, e toma como título um poema de Mário Cesariny, cuja vida e obra serviram de mote para o desenvolvimento do projecto.

À primeira vista parece que vamos entrar numa espécie de casa construída à pressa para albergar mais uns quadros ou um pequeno segredo. Na verdade, mal entramos sentimos um grande calor e muita humidade. Como se estivéssemos num clima tropical, somos presenteados com uma pequena sala com luz fraca, um grande espelho, bancos, bebidas, um rádio, um cinzeiro e… paredes pretas todas pintadas com mensagens em branco contrastante.

Contudo, umas pequenas escadas levam-nos para um andar inferior, onde temos um tanque cheio de água, casacos de cabedal pendurados, e uma televisão com várias imagens de homens a simular orgasmos. Esta instalação faz-nos sentir dentro de um filme, com um cenário de prisão e tortura aliado ao prazer do sexo masculino. Uma espécie de submundo no qual não nos atrevíamos a entrar por livre vontade.

No entanto, a personificação deste tema está excepcional, pois os artistas conseguem activar praticamente os cinco sentidos dos visitantes, tornado assim a experiência mais intensa e crua. Senti-me imerso nesta atmosfera, algo que é uma característica do contemporâneo, possibilitando a recriação de uma realidade paralela onde nos possamos refugiar ou imaginar graças aos estímulos da obra de arte.

No combo geral, esta visita ao MAAT revelou-se mais uma boa surpresa dentro das experiências dos museus de arte contemporânea. Mas afinal o que é a contemporaneidade? Que peso tem o presente na sua relação com o tempo, de forma a que haja algo depois do contemporâneo? A arte pretende dar resposta a esta problemática, de forma a reinventar-se e a transformar-se.

Provocando a sociedade do presente, os artistas contemporâneos usam uma linguagem cada vez mais directa, à sombra do que nós humanos fazemos para comunicarmos uns com os outros. A nossa obsessão pelas máquinas faz-nos questionar o papel da Arte: onde esta se encaixa num mundo mecanizado? Serão as máquinas os objectos artísticos? Serão estas capazes de criar Arte? O MAAT é só mais um dos muitos agentes responsáveis por receber e dar a conhecer os que tentam responder a estas questões, deixando para nós a experiência e a tentativa de solução para os nossos problemas pessoais e colectivos.

A Arte é um veículo de emoções, sabedoria, história e cultura, conceitos que estarão sempre presentes no Tempo. E não imagino melhor palco para nos questionar-mos sobre tudo isto e muito mais do que um Museu, pois é uma experiência introspectiva que leva a uma extrospecção da nossa mente.

MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia

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