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“António e o jornalista saem juntos. Diz o primeiro:
— Escrevi um artigo para ‘O Combate’, Chico. Gostaria de vê-lo publicado no próximo domingo.
— Claro. Meu jornaleco está precisando de sangue novo.
— Um artigo sobre problemas da cidade Caruaru.
— Ótimo. Ataca alguém?
— Mais ou menos.
— Gosto de coisas violentas. Já não tenho estímulo para escrever como antigamente. Hoje, ‘O Combate’ é apenas meio de vida. O que não impede que, de vez em quando, baixe o pau em alguém. Não admito safadezas.“
“Terra de Caruaru”
Duas pontes da minha terra marcaram a geografia da minha infância: a Ponte Velha, que unia os municípios de Aquidauana e de Anastácio e a ponte sobre o rio Apa, com Bela Vista do Brasil de um lado e Bela Vista do Paraguai do outro.
A Ponte Velha era de ferro e cobre, uma espécie de espada de aço sobre águas pardacentas. Dos dois lados, a imensidão do mundo, o mistério do mato, a flora humilde dos cerrados, o aroma dos cajus vermelhos e amarelos, os seixos, os troncos retorcidos, onde choravam as juritis. A Ponte Velha era um divisor de espaços e atravessávamos as serras azuis entre suspiros de pássaros.
Ler mais“Esses anos depredatórios, que passaram como um tropel, foram abrandando ou endurecendo o coração e a vontade de muitos, sendo uma e outra coisa, o abrandar-se e o endurecer-se, os signos da vulnerabilidade das nossas emoções. Os atos diante da embaixada eram obviamente catárticos, mas terminavam sendo, a longo prazo, patéticos recursos. De ano a ano ou de semestre a semestre, essa descarga e a ilusão de que nos arremetíamos contra a ditadura foram um ritual político que compensou a ausência de uma prática política efetiva. Entretanto, o impulso gregário da reclamação não cessava, e esse foi um dos reflexos que permaneceram sãos em muitos argentinos que voltaram à pátria.
Como se cumprissem uma promessa ineludível e por necessidade de uma sanção aprovatória, todos se encaminharam, nos seus primeiros, segundos e definitivos regressos, à Praça de Maio, para fazer a caminhada com as mães. Nesse lugar, o lugar por autonomásia da pólis e da tragédia da pólis, muitos que haviam tomado distintos rumos de desterro se encontraram, e podiam-se ver pessoas que vinham do Brasil abraçar pessoas da Espanha, Suécia ou Venezuela. Então, começavam – em duas ou três voltas na praça, não havia como concluir – o longo relato do que havia acontecido nesses anos e o reconhecimento do outro, esse par por desterro, mutante entre os próprios nacionais que haviam ficado no país.
“Em estado de memória”