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“Esses anos depredatórios, que passaram como um tropel, foram abrandando ou endurecendo o coração e a vontade de muitos, sendo uma e outra coisa, o abrandar-se e o endurecer-se, os signos da vulnerabilidade das nossas emoções. Os atos diante da embaixada eram obviamente catárticos, mas terminavam sendo, a longo prazo, patéticos recursos. De ano a ano ou de semestre a semestre, essa descarga e a ilusão de que nos arremetíamos contra a ditadura foram um ritual político que compensou a ausência de uma prática política efetiva. Entretanto, o impulso gregário da reclamação não cessava, e esse foi um dos reflexos que permaneceram sãos em muitos argentinos que voltaram à pátria.

Como se cumprissem uma promessa ineludível e por necessidade de uma sanção aprovatória, todos se encaminharam, nos seus primeiros, segundos e definitivos regressos, à Praça de Maio, para fazer a caminhada com as mães. Nesse lugar, o lugar por autonomásia da pólis e da tragédia da pólis, muitos que haviam tomado distintos rumos de desterro se encontraram, e podiam-se ver pessoas que vinham do Brasil abraçar pessoas da Espanha, Suécia ou Venezuela. Então, começavam – em duas ou três voltas na praça, não havia como concluir – o longo relato do que havia acontecido nesses anos e o reconhecimento do outro, esse par por desterro, mutante entre os próprios nacionais que haviam ficado no país.


“Em estado de memória”

Inicio esta resenha com a citação acima, como poderia iniciar com qualquer outra. No livro “Em estado de memória” (Editora Record, 2011, 222 páginas), da argentina Tununa Mercado, tudo é fragmentado, tudo é fragmentário. Misto de romance, ensaio, diários de bordo e trivialidades, no que toca ao intimismo a conta é válida. Lido em vários momentos ao largo da racionalidade, à medida em que me envolvia remeti-me à tessitura do meu próprio, “23 horas, 59 minutos: reminiscências do que está por vir” (Editora Carlos Prates, 2004, esgotado).

A escritora argentina Tununa Mercado

Resquícios de memórias dolorosas, a autora rememora uma página triste da história da Argentina, quando a ditadura militar obrigou muitos ao exílio, sendo ela mesma uma desterrada no México. Do novo país que a abriga, a forçada adaptação à cultura e aos costumes, interagindo com outros refugiados que se apoiam mutuamente. Culturalmente, a escritora relata as visitas à casa museu onde morou Trotsky, a casa de Frida Kahlo e Diego Rivera e se irrita com as comemorações futebolísticas de uma bandeira argentina desfraldada em frente à embaixada.

Nesse retalho memorialístico, a autora regressa à Argentina, adentra ruas ensanguentadas pelo regime ditatorial e isso tudo é gravado no espírito. Circunscrita ao seu mundo e ao seu perímetro, sai pouco e quando o faz adentra o mundo do mendigo escritor que dorme solenemente no banco da praça, ficando a saber tratar-se de um traumatizado promissor engenheiro. Mas traumas carregamos todos nós, e ela faz-nos ver que em muitos momentos muitos de nós somos mendigos.

De uma passagem a outra, Tununa pode criticar o comportamento não adaptativo dos seus compatriotas no México; pode nos guiar por avenidas sombrias em Buenos Aires; pode nos falar das suas roupas e de como não aderira à moda; pode nos falar da batalha travada com uma barata no seu apartamento; do sentimento dos refugiados e assim a aranha tece a sua teia. Falar sim, pois à medida em que lia sentia que estava a ouvir histórias, sentado e trocando a bomba do chimarrão, típica bebida sulista da América.

Tendo escrito romances, contos e ensaios, Nilda Mercado manteve o seu apelido de infância “Tununa” como seu pseudónimo literário

Como afirmei acima, muito passa ao largo do racional e estes fragmentos, que podem muito bem ser lidos separadamente, como belas e profundas crónicas, é um retrato fidedigno de sentimentos daqueles que foram obrigados a partir e, um ponto que me chamou bastante a atenção, é a observação dela para que não sejamos insensíveis acreditando que, dadas as circunstâncias, todo desterrado teve a oportunidade de participar de uma outra cultura, num outro país. Quando se é sentenciado e condenado a partir, perdemos a referência e sempre seremos os desterrados, os órfãos de pátria que nos condenam a um solipsismo absurdo.

Impressionado com a narrativa de Tununa Mercado, fui ver quem era e investigando, encontrei uma senhora octogenária no Facebook. Enviei solicitação de amizade e fui aceite. Linha direta, fiz ver à autora o quanto o seu livro me aqueceu junto ao sol no gélido mês de agosto.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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