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A obra que se seguiu, “Tintin no Tibete” (1960) é particularmente curiosa e tocante, pois o nosso herói segue a sua premunição acerca de um acontecimento terrível. Tintin “vê” que o seu amigo Tchang (de “O Lotus Azul“) sobreviveu ao despenhamento do avião onde seguia numa montanha do Tibete e onde todas as notícias indicavam não haver sobreviventes. Sem olhar a meios, Tintin parte em busca de algo que só o seu sentimento de fé e amizade pode justificar, correndo riscos num ambiente hostil. Nesta história não existem vilões ou maus da fita para serem perseguidos, apenas o valor da amizade prevalece, mostrando um outro lado de Hergé. Este era o seu título preferido entre os 24 que editou.

Em “As Jóias de Castafiore” (1963), Hergé diverte-se com uma aventura que no fim de contas não o é, pois, o autor usa uma rocambolesca série de eventos centrados em Moulinsart, casa de Tintin e Haddock, para dar aso à sua imaginação. A partir de uns dias de descanso de Castafiore junto dos seus amigos e juntando os ingredientes necessários para a história, o autor desenvolve a trama como se de uma peça de teatro se tratasse, aligeirando o cenário habitual das suas histórias.

Já o mesmo não acontece em “Voo 714 para Sydney” (1968) em que Hergé desenvolve um tema que lhe é querido, o paranormal. Com a participação dos principais vilões do universo Tintin, este e os seus amigos vêem-se envolvidos numa série de acontecimentos que os levam a estádios até aí inimagináveis para o nosso herói, tendo permitido a Hergé desenvolver temas e ideias que até aí não se tinha aventurado a expressar.

E eis-nos chegados ao último álbum editado em vida por Hergé, “Tintin e os Pícaros” (1976). Por esta altura, Hergé demorava cada vez mais tempo para publicar um álbum e isso fica bem patente no intervalo que decorre desde a última edição, em 1968. Nesta aventura, Tintin regressa a San Theodoros, um país algures na América Latina que o nosso herói já havia visitado em “A Orelha Quebrada” e em que Hergé traz novamente à discussão um tema marcadamente político, abordando a temática das revoluções e contrarrevoluções tão características desta geografia.

Hergé pretende nesta obra questionar a hipocrisia em torno dos interesses instalados nestes países, levando Tintin e os seus companheiros ao epicentro de um golpe de estado com prisioneiros e muitos tiros.

Postumamente foi publicado, primeiro em 1986 e posteriormente em 2004, o último trabalho, inacabado, de Hergé, “Tintin e a Alfa-Arte“. Nesta obra, o autor trabalhava em torno das seitas religiosas utilizando como cenário para desenvolver o seu enredo a arte moderna, uma área também muito querida ao criador destas histórias, que tentou ao longo da sua vida fazer parte da mesma.

Nas páginas publicadas é possível perceber a estrutura imaginativa que o autor imprimia à criação das suas histórias, deixando à imaginação dos leitores a forma como esta se iria apresentar num estádio mais avançado do processo criativo do escritor. Para os amantes das histórias de Tintin e de Hergé, em particular, este álbum permanecerá como o legado documental do seu processo criativo, uma vez que é composto na sua grande parte por esboços do que viria a ser o álbum.

Posto isto, é possível neste momento entender a importância de “As Aventuras de Tintin” no panorama da banda desenhada do século XX, pois Hergé consegue percorrer mais de metade desse período a publicar um conjunto de obras, e falo apenas em Tintin, que têm no seu conteúdo um conjunto alargado de mensagens de cariz essencialmente político, mas não só. Hergé transporta-nos através de Tintin para um comportamento humano, educativo e de valores espelhados na forma de estar do seu herói. Tintin é um personagem voluntarioso, pró-ativo, educado e defensor dos mais oprimidos e desfavorecidos.

Através da sua profissão de jornalista, Tintin percorre o planeta em circunstâncias diversas e enfrenta cenários que o põem à prova como homem de carne e osso e não como um qualquer herói provido de truques e armas secretas. Tintin vê-se obrigado, em variadíssimas situações, a dar aso à sua criatividade, astucia e conhecimento para se livrar de situações difíceis, embora que em algumas com um pouco de sorte à mistura. A sorte dos heróis!

O escritor belga Georges Prosper Remi, mais conhecido por Hergé (1907-1983)

Hergé revelou-se um personagem complexo ao longo da sua vida, tendo passado por vários momentos de provação ao longo da mesma, revelando, no entanto, uma grande capacidade de resiliência para superar as adversidades. No que à área criativa diz respeito, conseguiu ainda assim concretizar a criação do seu próprio estúdio criativo, passando a dispor da independência que tanto ambicionava. Viu-se envolvido em numerosas polémicas pelas razões que já fui expondo ao longo do texto, essencialmente políticas e raciais, no entanto também teve de resolver algumas questões relacionadas com os direitos dos animais e das espécies, obrigando-o, como também já referi, a reescrever partes das suas obras a fim de amenizar os potenciais compradores das mesmas.

É também relevante no contexto das histórias de Tintin a quase inexistência de mulheres com um papel decisivo no desenrolar das narrativas. Tal facto poderá ter que ver com a educação e contexto em que o autor cresceu, fortemente envolvido no movimento escutista e com a premissa educacional que na época obedecia a uma forte rigidez no que ao género dizia respeito.

Não é possível esquecer a influência que os outros personagens tiveram no êxito e crescimento das “Aventuras de Tintin”. Desde logo Milu, o Fox Terrier de pelo branco que é absolutamente inseparável do nosso herói. Em inúmeras situações de aperto é Milu que, qual personagem humana, intervém de forma decisiva sendo até em algumas histórias o elemento decisivo para a resolução das situações mais encrencadas! A par de Tintin e Milu, Haddock revela-se um personagem com uma grande importância no crescimento das narrativas criadas por Hergé, pois este traz, como já referi, um elemento surpresa e humorístico, que permitiu ao autor diversificar inúmeras situações que estariam muito limitadas sem a sua existência. Brilhante.

Também o Professor Girassol é importante ao trazer o espírito criativo científico ao contexto das histórias que se desenrolam no imaginário de Hergé, atingindo o seu expoente máximo no duplo “Rumo à Lua” e “Explorando a Lua“. Mais uma vez brilhante. Os Irmãos Dupond e Dupont trazem o elemento policial tão presente nas aventuras do nosso repórter jornalístico e, embora trapalhões, as histórias não seriam as mesmas sem a sua intervenção. Também Bianca Castafiore é transversal em “As Aventuras de Tintin”, o Rouxinol Milanês que traz um elemento artístico, mas ao mesmo tempo charmoso ao envolver-se nas histórias sem ao mesmo tempo se envolver propriamente! Uma personagem muito curiosa e bem trabalhada pelo escritor belga.

Os principais personagens de “As Aventuras de Tintin”: Capitão Haddock, Tintin e Milu, Professor Girassol, Irmãos Dupond e Dupont (da esquerda para a direita)

Nestor, o eterno empregado de Moulinsart com uma paciência infinita para aturar os caprichos de Haddock. Um sem número de vilões e personagens que, de forma inteligente, vão surgindo ao longo dos 24 capítulos, demonstrando por parte do autor a sua linha de continuidade, colando Tintin a uma vida real em que tudo vai sucedendo de forma absolutamente natural para um ser tão humano como nós.

A importância de Tintin fica bem ilustrada na existência das suas obras, ainda hoje nas bancas das principais livrarias. Foram feitos filmes animados, peças teatrais, exposições fixas e itinerantes, somando a isto um imenso merchandising dos personagens, roupa, louça e mais um sem número de coisas em torno do universo Tintin. Como já referi nesta retrospetiva, Steven Spilberg realizou um filme sobre o jovem jornalista e equaciona repetir a aventura. Tintin está vivo e recomendasse.

Sem qualquer tipo de desprimor para os outros heróis de banda desenhada, é tempo de acompanhar mais este personagem (e implicitamente o seu criador) que, com os seus dotes de inteligência e destreza, olha para as coisas como um humano comum, com um olhar contextualizado na realidade que nos rodeia, apenas.

Com mil milhões de raios e coriscos, boas leituras para todos vós!

Jorge Gameiro

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