OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Podem ler a primeira parte deste artigo aqui!

No ano em que a Bélgica foi ocupada pelos Nazis, na sequência do início da Segunda Grande Guerra Mundial e em que, após fugir para Paris e retornar ao seu país, Hergé fica desempregado após o fecho do Le Vingtième Siècle, vem a publicar já ao serviço do Le Soir (sob controle nazi), um capítulo absolutamente fundamental no desenvolvimento das histórias em torno do repórter Tintin.

O Caranguejo das Tenazes de Ouro” (1941) leva Tintin a terras do norte de África para desmantelar uma rede de tráfico de ópio e permite-lhe conhecer aquele que viria a ser o seu companheiro de aventuras daqui para a frente: Capitão Haddock. Marinheiro perdido no alcoolismo, Haddock encontra em Tintin a amizade que nunca teve enquanto homem do mar, e começa a partilhar a sua vida com o jovem repórter tornando-a numa aventura constante.

Haddock torna-se, não só, uma figura paternalista junto do jovem Tintin, como o elemento de humor permanente nas aventuras deste, com os seus comentários e situações hilariantes em que se vê envolvido. Hergé demonstra uma grande perspicácia ao introduzir este elemento nas suas histórias, pois passa a dar mais “vida” ao contexto em que estas se desenvolvem, trazendo ao mesmo tempo uma imprevisibilidade que até aí não se mostrava tão evidente.

A décima aventura é “A Estrela Cadente” (1942), que leva Tintin a uma disputa marítima numa expedição para alcançar o local onde caiu um monólito, em pleno Oceano Ártico. Este é o primeiro trabalho editado originalmente a cores.

É então que Hergé inova, introduzindo histórias com ligação em mais que um álbum. Embora em “Os Charutos do Faraó” e “O Lotus Azul” já o tivesse feito de alguma forma, o seguimento da narrativa não se interliga de forma evidente como nos casos seguintes, em que a mesma segue uma sequência do volume anterior, completando a história. Tal fica evidente no final dos livros em que o leitor é informado que a história continua no volume seguinte, o que não acontece em “Os Charutos do Faraó”.

Capa da banda desenhada “O Segredo do Licorne” (1943)

Em “O Segredo do Licorne” (1943) e “O Tesouro de Rackham o Terrível” (1944), não só ficamos a ter um conhecimento mais aprofundado dos antepassados de Haddock como nos é revelado a existência de um tesouro que irá alimentar os desenvolvimentos em ambos os capítulos. Tudo roda em torno da existência de três pergaminhos que revelam as coordenadas do local onde se encontra escondido o tesouro de Rackham. Esta é uma fase muito interessante das histórias criadas por Hergé, vindo mesmo a impelir Steven Spilberg a realizar um filme em animação 3D que aglutinaria a narrativa não só destes dois capítulos, como de “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” onde, como já referi, Tintin conhece Haddock.

De notar também que é no segundo capítulo desta aventura que aparece pela primeira vez o Professor Girassol. Cientista surdo e de uma criatividade imensa, Girassol vive literalmente no mundo da lua (como mais tarde se comprova) e traz um acréscimo de surpresa às aventuras de Tintin, passando a fazer parte do núcleo que partilha as aventuras que se desenrolam a partir daí.

E é já quando trabalhava em “As Sete Bolas de Cristal” (1948), que a Bélgica é libertada pelas forças aliadas da ocupação alemã, levando ao encerramento do jornal Le Soir onde trabalhava Hergé. Para além de ficar desempregado, Hérge vem a ser acusado de colaboracionismo, sendo inclusive preso. No entanto, e após ser ajudado por um conjunto de amigos, vem a ser ilibado de todas as acusações procurando a partir daí retomar a sua vida normal, colaborando com a editora belga Casterman, por quem foi sempre acompanhado ao longo de todo o processo na reedição a cores dos seus primeiros álbuns.

Capa da banda desenhada “O Templo do Sol” (1949)

Também este trabalho de Hergé vem a dar origem a um seguimento da história com o seu décimo quarto álbum, “O Templo do Sol” (1949). Nestas duas aventuras, Tintin investiga o misterioso encantamento de um grupo de cientistas que leva ao desaparecimento de Girassol após este cometer sacrilégio perante Rascar Capac usando as suas joias, tudo isto leva o jovem repórter e Haddock a terras sul americanas, mais precisamente ao Peru, onde encontram Girassol. Este último trabalho marca também um marco no percurso de Hérge, pois é o primeiro a ser editado na revista Tintin, onde simultaneamente começou a trabalhar com novos colaboradores.

Na sequência dos trabalhos editados por Hergé, seguem-se três títulos que são (para mim) dos mais interessantes e imaginativos. Em “No País do Ouro Negro” (1950), o autor retoma um trabalho que fora interrompido aquando do início da Guerra, fazendo alguns ajustes que se revelam muito interessantes. Como o título sugere, Tintin é levado a terras das arábias para investigar um caso de combustíveis adulterados. Nesta história, surgem novamente o Dr. Muller e o português Sr. Oliveira. Já nos dois álbuns seguintes, “Rumo à Lua” (1953) e “Explorando a Lua” (1954), Hergé transporta-nos, através de Tintin, para aquilo que na altura não nos passaria pela cabeça ser possível, o homem pisar a Lua.

Cerca de quinze anos antes de um homem pisar efetivamente a Lua, o autor consegue imaginar de forma muito precisa a forma como o homem viria a explorar o nosso satélite natural e voltar à terra são e salvo. Tal não seria possível sem os cálculos matemáticos do Professor Girassol e a companhia de Haddock. Uma ode à imaginação com muita diversão à mistura. O primeiro volume aborda todos os preparativos para a viagem ao espaço e o segundo descreve esta última até ao regresso à terra.

Capa da banda desenhada “Explorando a Lua” (1954)

De assinalar o facto de que, a partir da aventura à lua (os dois últimos capítulos descritos), os álbuns passaram a ser criação dos Estúdios Hergé. Após variadas divergências com colaboradores e editores de revistas de animação, Hergé decide formar a sua própria equipa e passar a ser o responsável único pela edição de “As Aventuras de Tintin“.

Em “O Caso Girassol” (1956), Hergé explora uma vertente um pouco mais de investigação policial, demonstrando através da narrativa da história até onde podem ir os interesses de governos e políticos para obter vantagem estratégica, indo ao ponto de raptar um cientista, Girassol, a fim de se apoderarem de uma invenção deste. Ainda que utilizando países e governos fictícios, Hergé não deixa de enquadrar as suas histórias num contexto real, utilizando o cartoon com manifesto socio político perante a realidade da época. Tal fica bem espelhado no título que se seguiu, não sendo consensual o nome do mesmo.

Tendo por base a denúncia e desmantelamento de uma rede de trafico humano, um dos títulos da obra foi “Perdidos no Mar“, no entanto veio a ser feita a publicação com o titulo primitivo, “Carvão no Porão” (1958). Ainda hoje esta temática é pertinente, demonstrando a perspicácia de Hergé ao procurar denunciar, à época, este tipo de crimes.

Não percas o próximo episódio desta retrospetiva ao aclamado repórter Tintin, porque nós também não!

Jorge Gameiro

O OBarrete quer continuar a trazer as melhores análises e embarcar em novas aventuras. Clica aqui e ajuda-nos, com o mínimo que seja, a conseguir os nossos objetivos!

One thought on “Tintin: O legado perdura (2)

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from OBarrete

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading