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Porque A Arte Somos Nós

Há acontecimentos na nossa vida que nos podem deixar completamente desamparados e sem motivo, nem força, para tentarmos dar a volta por cima. Por um passado que, certamente, com uma sucessão de acontecimentos não voltará nunca mais, podemos agarrar-nos de tal forma à saudade, ou à dor de uma perda, que o resto deixa de fazer sentido: a própria vida deixa de fazer sentido. Para tal, é essencial muita força mental, muita capacidade de resiliência e, até, de muito apoio exterior. Mas, a verdadeira e mais autêntica revolução — amplamente necessária para combater a realidade — tem de partir, sempre, de dentro.

Mas nem sempre é fácil. Ou porque a dor é de tal forma insuportável que não nos conseguimos focar no presente, ou os julgamentos externos subjugam-nos a um nível de toxicidade simplesmente irremediável e sem aparente retorno. É o caso de Charlie, interpretado por Brendan Fraser e protagonista do filme “The Whale” (2022) — “A Baleia“, em português.

Charlie é professor de Inglês com um grave problema de obesidade mórbida, que vive praticamente isolado da civilização e que vai sobrevivendo no limite da sua condição. Charlie, inclusive, não consegue andar a não ser com um apoio especial e, para as tarefas quotidianas, conta com a ajuda de Liz, interpretada por Hong Chau, uma amiga enfermeira com a dor de uma perda comum. O filme é realizado por Darren Aronofsky e escrito por Samuel D. Hunter, cujo argumento é baseado na sua peça de teatro homónima, publicada em 2012.

Liz, personagem interpretada por Hong Chau

A verdade é que a situação de Charlie é simplesmente degradante, uma vez que este passa praticamente todo o dia sentado no sofá: ou a trabalhar online nos ensaios dos seus alunos, ou a comer — muitas vezes simultaneamente. E até mesmo o seu trabalho, apesar de ser uma paixão sua, resulta de uma motivação maior, exterior a si mesmo. Então, o apoio de Liz é fundamental, na medida em que Charlie vai tendo certas manifestações físicas deveras preocupantes e, portanto, Liz vai, literalmente, aparando a sua vida. Liz que está completamente conformada com o estado de Charlie, focando-se em deixá-lo feliz enquanto a sua vida vai durando.

Certas questões são tratadas neste filme com uma profundidade e subtileza deveras distintas, a começar pela temática da solidão. A metáfora que aqui se cria com o título da obra é brilhante, sendo complementada por uma sucessão de dias da semana em que o ambiente exterior é de chuva e de melancolia — por extensão ao estado interior do nosso protagonista. Dias da semana, esses, devidamente individualizados e que culminam num merecido dia de sol, de esperança, de renascimento. A narrativa de “The Whale” vai sendo trabalhada de uma maneira muito sui generis, não fosse ela a adaptação de uma peça de teatro que, por conseguinte, está limitada a uma expansão territorial bastante reduzida.

Todavia, este detalhe joga a favor do filme, que abraça esta condição com personalidade, possibilitando ao espectador entrar na história com enorme familiaridade e proximidade. O possível confronto e choque para com o desastre físico que descreve Charlie não invalida, muito pelo contrário, que consigamos entrar, sucessivamente, dentro da sua mente e do seu coração — e este aspecto demonstra o quão forte “The Whale” consegue ser, do ponto de vista emocional e interventivo. Além disso, Charlie tem no seu passado um arrependimento que o acompanha desde então: uma filha — e uma família — deixada para trás em prol de um relacionamento muito profundo com um aluno seu.

“The Whale” (2022)

Charlie que anseia recuperar o tempo perdido com a sua filha, Ellie (Sadie Sink), que não dá grande espaço para tal, tendo em conta a mágoa que a separação — e, sobretudo, o motivo da mesma — gerou. Porém, ele está perfeitamente ciente de que é muito tarde para o conseguir, quer pelo nível de rutura entre ambos, quer pela força da sua saúde — ou falta dela. Ainda assim, percebemos nos pequenos detalhes a beleza do interior do nosso protagonista, que guarda consigo apenas a beleza de um otimismo sem fim perante o mundo, apesar de estar dominado por um conjunto de perdas totalmente destrutivas.

No meio de tudo isto, a condição física de Charlie é o que menos o afecta, na medida em que, por detrás daquele corpo estranho, anormal e repugnante, está uma alma cheia de amor, sabedoria, esperança e sonhos. Neste sentido, estamos perante um filme que aborda temas bastante complexos, como a solidão, a auto-aceitação e o desafio que é a conexão humana como um todo.

Além disso, toda a história de Charlie, enquanto homem obeso “preso” na sua própria casa, numa luta incessante pela saúde física e mental, pode ser encarada como uma profunda alegoria sobre a luta global da humanidade contra a marginalização e os estigmas sociais. Então, neste aspeto, como em tantos outros, “The Whale” eleva-se do ponto de vista sentimental e interventivo.

Ellie (Sadie Sink)

O grande sonho de Charlie passa por chegar ao fim da sua vida sentindo que conseguiu, pelo menos uma vez, fazer algo realmente bom e certeiro. Então, o próprio procura redenção para com os erros que cometeu no passado. Com efeito, a narrativa presenteia-nos com mensagens muito marcantes neste sentido, levando o espectador a refletir sobre a necessidade de não desistirmos do que realmente somos. Por outro lado, ele próprio vai defendendo ao longo da história a importância de sermos autênticos e (intelectualmente) honestos nas nossas opiniões e interpretações. Para Charlie, mais importante do que ser bem articulado e fluente é termos verdadeiramente algo a dizer.

Assim, “The Whale”, tocando em questões sensíveis e complexas de identidade e inclusão, mostra-nos a força de uma narrativa que tem na interpretação de Brendan Fraser o seu mais belo apanágio. A forma como o ator abraça este desafio com um certo sentimento simbólico e metafórico de renascimento — unívoco à própria personagem — fica expresso de forma emblemática durante toda a história. Uma experiência fílmica simplesmente inesquecível, repleta de humanidade e de frieza cinematográfica. Um retrato do poder da luz da honestidade ao longo da nossa vida e da necessidade de não nos agarrarmos em demasia ao passado, lutando sempre pelo nosso — ainda que possivelmente assustador — presente.

Um filme sobre superação, amor, perdão, solidão e esperança.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 3.5 out of 4.

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2 thoughts on ““The Whale”: A luz da honestidade

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