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Porque A Arte Somos Nós

Grupos de apoio e convivência são muito importantes no que toca à compreensão de alguns sofrimentos, momentos agradáveis de suspensão a angústias que nos atingem na essência. Desde que a cuidadora da minha mãe falecera, eu voltara à pequena cidade e suspendera a pesada rotina de compromissos profissionais em Madrid, atuando como engenheiro civil. Deixara a esposa retornar com os meus dois filhos e passara a ter um período sabático nesta cidadela entrevistando pessoas que pudessem assumir a tarefa de cuidar da minha mãe.

Eu não precisei de escolher Sofia, ela já convivia na minha casa desde sempre e foi natural ela ter assumido os cuidados com a mãe, Valéria. Era diferente agora, perdera todas as referências de quando deixara a cidade e as pessoas que respondiam aos anúncios do Facebook pareciam não se encaixar no perfil. Percebi-me extremamente exigente.

A minha mãe fora diagnosticada com o mal de Parkinson. Rigidez facial e um leve tremor involuntário, mas lúcida e consciente do seu estado, devoradora de livros migrando agora para os áudios, sempre antenada com as notícias da televisão e acrescendo agora aos seus afazeres um cargo como segunda secretária no grupo de apoio a portadores e familiares do mal que a acometia. Reuniões às terças e quintas, no período da tarde após a siesta, cerca de vinte pessoas se reuniam e naquele dia em especial se apresentaria um escritor que também fora acometido com a enfermidade.

O senhor Jiménez tinha 70 anos. Simpático, mesmo se desculpando pela não totalidade das expressões que o seu rosto poderia exercer, encantou-nos com uma charla motivacional que nos fez soltar boas gargalhadas. Há muito não ria assim, chegando a escapar lágrimas, ainda mais observando o efeito catártico que essa reação provocava nas pessoas. Um senhor chegou mesmo a cair, com espasmos e foi preciso recompô-lo e percebemos nele um esgar de sorriso. Um pouco da verve do escritor humorista:

— Insisti nesta novela há quarenta anos e devo admitir que sou uma mula teimosa. Contei 459 oferecimentos a concursos e enfim ganhei o primeiro lugar. Já estava a pensar… – leves tremores e um tique nervoso nos olhos – já estava a pensar que iria ser premiado quando virasse múmia. Ainda bem que tiveram a sensibilidade, mesmo que ao acaso. Mas é sobre os tremores que desejo falar aqui. É interessante e chega a ser engraçado como parte do meu braço parece existir sem o meu comando.

Sinto as suas vantagens: já dei um tabefe em um genro sem me indispor com ele e agora que estreei na literatura profissionalmente, e sinto que as vendas estão excelentes, por motivos óbvios não preciso de autografar os tantos livros. E para as fotos e selfies, invariavelmente elas saem tremidas – o público explodiu numa gargalhada.

A sua conversa leve, um pouco entrecortada, com um fio de baba a escapar-lhe de vez em quando encantou a todos. Chegou a brincar que desferia um tapa na filha que insistia em findar a charla, na verdade o público não deixou, tantos foram os pedidos para as fotos e aquelas quase três horas, finalizadas com o chá e biscoitos, passaram como se fossem vinte minutos.

Com a minha mãe no carro, respondi-lhe que não, ainda não havia decidido a melhor cuidadora. Ela folheava o livro, comprometi a ler em voz alta e ficaria ali, sem pressa de retornar ao ofício. Nas conversas posteriores, muito do senhor Jiménez foi comentado e discutido. Quando voltava a ser o menino que fora um dia, a mãe brincava em me desferir um tapa. Os dias iam passando…

Marcelo Pereira Rodrigues

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