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Antes de analisar “Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom”, devo dizer que cresci com o mundo cindido entre capitalistas-comunistas, no auge e declínio da Guerra Fria e quando do desmantelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, dificultando-me decorar os nomes dos novos países e as suas respetivas capitais. A barbárie instalou-se na Iugoslávia no começo da década de 1990 e a certeza de que a paz era uma quimera naquela região do mundo. Com as suas fronteiras instáveis e independência apenas teórica, muitos países ainda orbitam em torno da potência de Vladimir Putin, a Rússia. Basta nos atentarmos ao noticiário para tomarmos conhecimento em como a Guerra Fria ameaça ficar bastante quente.

Assistindo ao documentário “Winter On Fire: Ukraine’s Fight For Freedom”, escrito por Den Tolmor e realizado pelo cineasta Evgeny Afineevsky, de 2015, a sua 1h38min é tensa. Em outubro de 2013, um grupo de manifestantes, a maioria estudantes, ocupou a Praça Maidan, em Kiev, capital da Ucrânia, para protestar contra o presidente Viktor F. Yanukovich, acusando-o de travar a adesão do país ao bloco europeu, sendo ele mais aliado ao ditador russo. O documentário apresenta as cenas tensas de confrontos entre os manifestantes e a polícia, e ficamos a observar o complexo jogo de cidadãos ucranianos lutando contra cidadãos ucranianos. Essa Bastilha não cairá tão cedo, pois do outro lado está a temida polícia Berkut.

“Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom” (2015)

Como todo o movimento que se inicia, percebe-se um certo ar pueril nos jovens com os seus telemóveis e redes sociais. Aquela pretensão de se mudar o mundo e parece inicialmente que se encaminham para um festival de rock. Quando a coisa vai ganhando corpo, com a adesão de algumas celebridades e o número de descontentes crescendo com discursos inflamados, a tensão sobe o tom e o conflito mostra-se inevitável. Observamos algumas cenas lamentáveis, com cabeças partidas, vistas cegadas, abusos e barricadas que só fazem crescer a guerra campal urbana. O pau come.

Mancomunado com o presidente, o Parlamento vota leis que proíbem a população de usar capacetes, mesmo os automóveis são proibidos de circular em determinadas regiões e a essas estapafúrdias leis os manifestantes utilizam de ironias, circulando com panelas na cabeça e gozando com os parlamentares, questionando se estes não incluiriam leis para este impedimento.

A sequência da contagem dos dias é dramática, e nem mesmo as festividades de ano novo parecem arrefecer o confronto. Já cansados e enfrentando bravamente o poderio policial e político, com corpos estendidos pelo chão, incluindo alguns policiais, o certo é que a situação se torna insustentável, a ponto de o presidente renunciar e fugir na calada da noite.

Isso em fevereiro do ano de 2014 e quando o Parlamento promete novas eleições para o final daquele ano, é solenemente confrontado e o certo é que o povo quer as eleições para um período bem mais breve. As tomadas da praça, das ruas adjacentes, o tremular da bandeira ucraniana e o hino com os seus gritos de ordem, representam um povo que não se sujeitou aos interesses de um presidente incapaz.

“Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom” (2015)

Da série “Eu vejo o futuro repetir o passado / eu vejo um museu de grandes novidades“, e do mesmo modo que li sobre a violência soviética na Hungria na década de 1950; na Primavera de Praga em fins de 60 e outras, parece que o Leste europeu está fadado a conviver com a sua inconsistência. Este hiato de tempo entre o documentário supracitado e o que observamos hoje reflete bem isso que estou a escrever: agora, com a Ucrânia mais europeia e tentando entrar na OTAN, e se ela é um país independente, qual a razão para Putin estar a invadir este país? Pois a Rússia pode fazer isto sem questionamentos? Estranho.

Que os conflitos mundo afora possam ser resolvidos com a razão, com o discernimento e o bom senso. Mesmo sendo ingénuo (admito isso), ainda levantarei a bandeira do Iluminismo e das nações livres no planeta, com a Lei dos Direitos Humanos imperando de forma a evitarmos a barbárie.

Retornando à análise do documentário, coincidentemente aqui no Brasil ocorreram manifestações duras no mesmo período, contra a realização da Copa do Mundo de 2014, numa manifestação iniciada (acreditem!) devido a um aumento de vinte centavos no preço da viagem de autocarro em São Paulo. Um mero rastilho de pólvora que explodiu alguns barris de dinamite. E algumas dessas manifestações levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, com o seu corrupto governo do PT, Partido dos Trabalhadores. Ou seja, tivemos também a nossa dose de Ucrânia…

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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