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Em pleno século XXI, tempo em que as opiniões são cada vez mais numerosas e irrefletidas, considero relevante resgatar uma pergunta que volta e meia ouço: “Para que serve a crítica de cinema?” É uma questão legítima. Afinal de contas, qualquer pessoa, tendo acesso a uma determinada obra cinematográfica, pode (e deve) emitir o seu ponto de vista sobre ela. Este ímpeto de conversar sobre cinema tem servido de sustento a uma arte que se assumiu como uma das mais populares e reputadas do século XX.

Parto para este artigo, portanto, com o maior apreço por quem gosta de discutir e opinar sobre os mais variados filmes. Estou sempre predisposto a fazê-lo com bastante entusiasmo. No entanto, traço uma linha a negrito entre quem o faz de forma leviana e restrita, e quem o pratica consistentemente, munido da maior quantidade de informação possível e com um certo sentido de responsabilidade. É do meu enviesado entender que a opinião especializada ocupa, assim, um lugar particular no discurso fílmico e que este deve ser preservado.

“Citizen Kane”, realizado e protagonizado por Orson Welles, é um dos filmes mais aclamados pela crítica na história do cinema. A obra aborda o poder da comunicação e o seu significado, quer seja mais ou menos íntimo, contudo, a crítica em si também carrega uma mensagem ao leitor, mensagem essa que comporta a responsabilidade de um juízo.

Respondendo de forma clara à pergunta inicial, a crítica de cinema serve para informar, analisar, publicitar e comentar com memória histórica uma obra. Isto, claro, empacotado numa posição que pode ser favorável ou desfavorável. Esta descrição distingue o juízo profissionalizado dos comentários fugazes nas redes sociais e dos pareceres que ignoram a vastidão e profundidade dos universos cinematográficos.

A crítica de cinema deve constatar e avaliar tendências, mas não ceder às mesmas. Deve resistir aos populismos, mas não os deve ignorar. Deve ser um estandarte descritivo das qualidades e imperfeições de um dado filme, com base numa série de critérios subjetivos, mas que dizem respeito à constituição da sua anatomia. Desde os aspetos mais técnicos, como a montagem, até aos significados das narrativas que contam através de imagens.

Um dos aspetos que mais me fascina neste ofício é a possibilidade de poder ajudar a espalhar a palavra sobre filmes que, por razões de marketing e distribuição, não têm a projeção que merecem. Obras como o drama “Leave No Trace” (2018), de Debra Granik, ou, para citar um exemplo mais recente, o revigorante “Caros Camaradas!” (2021), de Andrei Konchalovsky.

“Caros Camaradas!” (2021)

Outro traço que procuro salientar nos meus textos e análises em Podcast prende-se com a necessidade de situar a obra no seu contexto cinematográfico. Ou seja, responder a perguntas como: “De que forma é que este filme se relaciona com a história do cinema?”; “Quais são as suas influências?”; “Que lugar tem no currículo do cineasta ou intérpretes que o animam?”. O elenco de questões continua. Interessa oferecer ao leitor ou ouvinte algumas perspetivas que exigem um conhecimento e estudo prévios.

Porquê que isto é importante? Pergunta o leitor mais cético. Nas palavras do famoso crítico de cinema norte-americano, Roger Ebert, “A crítica de cinema é importante porque os filmes são importantes“. Esta frase é de 2 de novembro de 2005, contudo, podia ter sido dita hoje mesmo. O cinema molda a consciência coletiva, inspira através da sua linguagem imagética, e, também nas palavras de Ebert, “É uma máquina de gerar empatia“. Assim sendo, discursar sobre cinema adquire uma importância que transcende a própria película. Ambiciona, em última instância, contribuir de forma edificante para o debate fílmico. Na certeza de que não é uma posição definitiva, mas sim o ponto de partida para uma discussão contínua.

Bernardo Freire

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