OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Acredito que todos tenhamos ouvido falar do Dr. Frankenstein. O médico que acabou a criar um monstro, a partir de uma experiência científica. Uma coisa do imaginário popular, essa história de médico e de monstro. Cresci ouvindo menções, e li resenhas sobre a grande pequena obra de Mary Shelley (1797-1851), e confesso que ainda não li o livro.

Vi uma película aludindo à obra e agora acabo de assistir a “Mary Shelley”, da realizadora Haifaa Al Mansour, que também escreve o argumento. Com Elle Fanning (que interpreta a protagonista), Douglas Booth (que interpreta o carismático poeta Percy Shelley), Tom Sturridge (interpretando o tresloucado poeta Lord Byron) e Bel Powley (como Claire Clairmont), o drama biográfico de duas horas exatas, lançado em 2017, apresenta-nos uma jovem emancipada e mulher à frente do seu tempo, Mary Wollstonecraft, que é filha de intelectuais em Londres, sendo que a sua mãe, uma convicta escritora feminista, havia falecido e deixado o seu esposo com algumas dívidas na livraria onde tenta manter os negócios. Vender livros já era bem complicado à época.

Mary conhece Percy e por ele se apaixona. O jovem poeta já possui algum destaque nos saraus e é de caráter pusilânime, não se importando com a esposa nem com a filha. Literalmente, vive no mundo dos versos. O amor tem razões que a própria razão desconhece, e o enlace dá-se para desgosto do pai livreiro, e aos 16 anos Mary já se aventura pelas trilhas do coração. Juntamente à meia-irmã Claire, vão viver miseravelmente como um trio emancipado, e as promessas de futuro são auspiciosas.

Douglas Booth (Shelley) e Elle Fanning (Mary Shelley)

Contudo a dura e fria realidade vem bater-lhes à porta, representada pelas cobranças dos muitos credores e o idílio desfaz-se. Agora Mary e Percy possuem uma filha, Clara, que não aguenta as agruras de tanta penúria e morre bebezinha ainda. A despeito de tanta falha de caráter, a fama literária do poeta mantêm-se, mas os ganhos não dão para quitar as pesadas dívidas.

Se este poeta vive no mundo da lua, o que se dizer de Lord Byron (1788-1824)? Confesso que deste também não li nada, espero fazê-lo em breve, mas já impressionado com o seu jeito amalucado de se portar. Mas a diferença é que ele é um barão e mora num castelo opulento, podendo assim desfrutar a sua vida com poemas, bebidas, mulheres e drogas, não necessariamente nessa mesma ordem. Claire encontra-o no teatro e logo o trio recebe o convite para o visitar na sua propriedade, o que ocorre e desses encontros libertinos até a pudica Mary, ela que se dizia emancipada e com a cabeça mais arejada, sente engulhos.

Ela percebe que Percy está em frangalhos, destruído física e espiritualmente da temporada que está no castelo, agravada por temporais incessantes, com os raios e trovões aliados ao tédio surge a ideia de cada um dos convidados escreverem uma história, sendo que a melhor seria coroada.

“Mary Shelley” (2017)

Mary, desde jovem incerta com os seus escritos, que adorava histórias de terror, e certamente inspirada por uma conversa com um amigo médico que frequentava Byron, volta-se para dentro e escreve uma obra soberba! Mas soberba como, se você não leu a obra, caro resenhista? Esclareço: soberba pelo facto de ter sido a primeira mulher a escrever uma obra de ficção científica, e não de terror, como comumente é catalogado, e assistindo ao filme percebi a grandeza e a beleza da sua metáfora. O monstro abandonado era ela própria, com as suas dores existenciais de uma alma que queria gritar ao mundo, e este silêncio persistiria também pela negativa de vários editores em lançar a história.

Um dos editores admite a publicação, mas desde que seja com a introdução de Percy Shelley, e após este consentimento, o absurdo apresenta-se quando na capa do livro não consta a autoria de Mary, mas sim do amante. Tanto descaramento é exagerado até para o caráter escroto de Percy, que num dos saraus admite a fraude e destina a autoria a quem de facto. Plágios e fraudes ocorrem também com o médico, que tem o seu original chamado “Vampiro” conspurcado por Lord Byron.

Uma película sóbria, com cenários e fotografias deslumbrantes, um ambiente e conversas ricas, entremeadas de bastante drama e por que não dizer, aventuras? Agora ficamos a saber mais dos bastidores do nascimento deste monstro deformado proposto por um médico.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

Se queres que OBarrete continue ao mais alto nível e evolua para algo ainda maior, é a tua vez de poder participar com o pouco que seja. Clica aqui e junta-te à família!

IMDB

Rotten Tomatoes

One thought on ““Mary Shelley”: Os bastidores de uma grande obra literária

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: