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Podem ler o segundo capítulo do livro “A Máquina da Verdade” aqui!

No Cristo Redentor

Quando o jovem fotógrafo voltou para casa, já era noite. Sandrinha sempre fora muito estudiosa, e quando Gabriel e Cadu chegaram à casa da menina, quase metade do trabalho de ciências já estava feito. Não fosse a menina ter adiantado nas pesquisas, só terminariam lá pelas dez da noite.

Vendo o filho chegando em casa, Ivone interpelou-o:

— Biel, vai tomar banho pro jantar, filho. Eu fiz lasanha, seu prato favorito.

Gabriel ficou com água na boca. Entrou em seu quarto rapidamente e pegou sua toalha. Olhou para o estojo de sua câmara nova e pensou: “Depois do jantar, eu brinco com a minha maquininha nova. A lasanha não pode esperar”.

Entretanto, ao olhar pela janela do seu quarto, o pequeno fotógrafo mudou de ideia quanto à lasanha. Lá fora, o céu estava limpo de nuvens, e uma belíssima lua cheia brilhava com toda a sua força no firmamento. O menino largou a toalha, tirou a máquina do estojo e procurou sua mãe na cozinha; e ao ver Ivone, avisou:

— Mãe, eu vou lá no Cristo, rapidinho. Guarda a lasanha. Eu vou devorá-la quando voltar!

Ivone ainda tentou dizer um não para o filho, mas ele conseguiu sair antes da proibição. Ainda que a cidade de Conselheiro Lafaiete, município do interior de Minas Gerais, fosse tranquila, a mãe do menino nunca gostou que o filho saísse sozinho à noite, e fez uma pequena prece pedindo a Deus que olhasse por ele.

O fotógrafo mirim resolveu ir de bicicleta, e em poucos minutos chegou à Praça do Cristo. A cidade tinha uma réplica em menor escala do Cristo Redentor original num dos pontos mais altos do município. Certa vez, quando passava por ali à noite, a lua estava cheia e brilhante como agora, e juntamente com a estátua, criava um dos mais belos cenários que o garoto já vira. Ele prometera então a si mesmo que assim que conseguisse uma câmara melhor e com mais recursos do que sua antiga máquina, voltaria ali e faria a mais bela fotografia daquele lugar que a cidade jamais vira.

O menino parou com sua bicicleta na pequena praça que levava o nome da estátua. Desceu, e com um acessório próprio, prendeu o veículo na coluna tubular que sustentava o toldo de um pequeno quiosque. Gabriel queria dar toda a sua atenção à fotografia da estátua, e se não tivesse que se preocupar com um possível ladrão de bicicletas, ficaria mais concentrado em seu objetivo.

Depois de ajustar a câmara, o pequeno fotógrafo procurou o melhor ângulo da estátua e da lua, e começou a tirar uma série de fotos. Enquanto fotografava, Gabriel também verificava no pequeno visor da máquina — uma espécie de televisor miniaturizado — se o enquadramento e a iluminação dos seus modelos estavam satisfatórios. Foi numa dessas verificações que ele percebeu uma silhueta parada na base da estátua. O menino sabia que não tinha visto ninguém quando chegou à praça, mas quando deixou a câmara de lado e olhou para o Cristo Redentor à sua frente, teve a certeza de que não estava sozinho.

Havia um homem parado no pé da estátua, e este o observava. O fotógrafo mirim não conseguia ver o rosto do homem, pois a lua estava por trás dele, criando uma sombra sobre sua face. O sentido de alerta do garoto aguçou-se, e ele começou a se afastar lentamente. Percebendo a tentativa de fuga de Gabriel, o homem começou a se movimentar. Um instinto imediato de sobrevivência pôs o menino a correr. Quando alcançou sua bicicleta, o pequeno fotógrafo lamentou-se por colocá-la presa à coluna do quiosque. Olhou para trás e o homem estava tão próximo, que podia ver suas mãos enrugadas. O menino não teve coragem de olhar para o rosto do sujeito, e abandonando sua bicicleta onde estava, correu para trás do quiosque e procurou um lugar para esconder-se.

Encostou-se em uma parede e deu uma espiada. O homem procurava-o. A luz da lua iluminava a praça, mas alguns cantos ficavam na penumbra, dificultando a visão. Seria uma questão de segundos até o homem descobri-lo, e Gabriel sabia que não podia ficar ali. Deu a volta no quiosque e saiu da praça pela direção oposta da que vinha o homem. Chegou à base da estátua e escondeu-se em um canto. Espiou mais uma vez e viu que o sujeito ainda o procurava no quiosque. “Preciso fazê-lo se afastar de minha bicicleta”, refletiu o pequeno fotógrafo. Olhou à sua volta, e ao ver uma grande caçamba usada para recolher entulhos, teve uma ideia. Procurou no chão uma pedra e jogou-a. Errou por alguns centímetros a caçamba. Tentou de novo com outra pedra e acertou. Deu uma espiada e viu que o homem havia mordido a isca, pois agora caminhava a passos rápidos na direção do som que ouvira. Voltou pelo lado que viera, e assim que alcançou o quiosque, tirou do bolso a chave da tranca de sua bicicleta. Tentou não fazer barulho, mas o acessório bateu no tubo que sustentava o toldo do quiosque e atraiu a atenção do homem misterioso. Percebendo que fora enganado, o homem correu para intercetar o menino. O pequeno fotógrafo montou no veículo e pedalou. Por pouco o sujeito não o alcançara. O garoto resmungou durante todo o trajeto de volta para casa. Não por causa do homem misterioso, mas por não ter conseguido tirar as fotografias que tanto queria.

Wandson DeSilva

A Máquina da Verdade” é um romance lançado em 2020, sendo o 1.º livro do escritor brasileiro Wandson DeSilva enquanto profissional da escrita. A história é repleta de aventura, suspense e mistério, tendo já conquistado inúmeros leitores. O livro foi lançado na cidade de Bela Horizonte e já atravessou o atlântico, tendo chegando a Portugal.

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One thought on ““A Máquina da Verdade”, por Wandson Desilva (3)

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