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“Elogio da Madrasta” (Editora Objetiva, 179 páginas) do escritor peruano Mario Vargas Llosa é mais um exercício literário que visa construir uma novela erótica e muito sensual, remetendo à lembrança das nossas descobertas sexuais enquanto miúdos e, brincando um pouco, assemelha-se um pouco ao charme e jogo de sedução de uma Lolita, o clássico de Vladimir Nabokov. Llosa é considerado hoje um dos intelectuais mais importantes do mundo, sempre com uma investigação isenta e equilibrada nas observações das coisas, a ver na sua prestigiada coluna no jornal espanhol El País.

Longe de ser caudaloso como os seus clássicos “Conversa na Catedral” e “Guerra do Fim do Mundo“; ou mais palatáveis tais “Travessuras da Menina Má” e “Tia Julia e o Escrevinhador“; ou do escrachado enredo que narra os bastidores de um prostíbulo em “Pantaleão e as Visitadoras“, neste “Elogio da Madrasta” o enredo é terno e engraçado. Tudo se dá a partir do ponto de vista de um miúdo de 11 anos, que vê o seu pai, don Rigoberto, casar-se pela segunda vez com a estonteante Lucrecia, sendo que a sua mãe havia falecido.

O casal recém-casado está ainda no período da lua de mel e a preocupação do pai é se Alfonso (ou Fonchito), o miúdo, se irá adaptar e aceitar a nova esposa. O miúdo acaba por se afeiçoar a ela e até demais, sendo este o perigo. À medida que lia, remetia à infância e à descoberta do sexo nos mistérios que ainda nos eram proibidos.

Engana-se quem pensa que a obra descambará para baixarias e construção pobre. A elegância de Llosa não permite isso, a trama vai nos enredando no jogo de sedução do miúdo e quando se vai a ver, a madrasta está completamente envolvida com ele. O livro é corporal no sentido de ser sensorial o tempo inteiro, descrevendo as minúcias de um banho e quando isso se transforma em terapia por parte de don Rigoberto, sempre asseado como se estivesse a praticar um ritual: limpeza das orelhas, das axilas, esfregar as partes genitais, etc.

O escritor, ensaísta e professor universitário peruano Mario Vargas Llosa

Com subtileza e fina ironia, o autor conta-nos uma história plausível e interdita, escondida pela moral e pelos bons costumes, mas ouso afirmar que é bem possível de acontecer. Incrível perceber como a inocência de um miúdo se pode armar de ardis de forma a conseguir o que quer, em como o pouco caso do pai na observância da relação enteado-madrasta compromete e como a vida de todos será afetada pelos desdobramentos dessa mesma relação.

Um livro prazeroso de se ler, envolvente e fica a dica para conhecerem este autor que é hoje um farol que nos guia pelas searas da informação, como acontece nas suas colunas do El País, bem como as fugas para os romances e novelas que tão bem nos embalam.

Trecho do livro:

O menino, ainda com a camisa e a calça do uniforme do colégio, estava sentado à sua mesa de trabalho, de cabeça baixa. Levantou-a e olhou para ela, imóvel e triste, mais bonito do que nunca. Embora ainda entrasse luz pela janela, a lâmpada estava acesa e no dourado círculo que caía sobre o mata-borrão esverdeado dona Lucrecia viu uma carta pela metade, com a tinta ainda a brilhar, e uma caneta destampada ao lado de sua mãozinha com os dedos manchados.

Ela aproximou-se em passos lentos.

— O que está fazendo? – murmurou,

A sua voz e as suas mãos tremiam, o peito subia e descia.

— Escrevendo uma carta – respondeu na hora o menino, com firmeza. — Para você.

— Para mim? – sorriu ela, tentando parecer lisonjeada. — Posso ler?

Alfonso pôs a mão em cima do papel. Estava despenteado e muito sério.

— Ainda não – no seu olhar havia uma resolução adulta e o tom era desafiante. — É uma carta de despedida.— De despedida? Mas por acaso você vai para algum lugar, Fonchito?

— Vou me matar – dona Lucrecia ouviu-o dizer, olhando fixo para ela, sem se mexer. Mas, depois de alguns segundos, a sua compostura quebrou-se e os olhos ficaram marejados: — Porque você não me ama mais, madrasta.

Ouvi-lo falar daquela maneira entre dolorida e agressiva, com a carinha contorcendo-se numa careta que tentava em vão refrear e usando palavras de amante despeitado que contrastavam tanto com a sua figurinha imberbe, de calça curta, desarmou dona Lucrecia. Ela ficou muda, boquiaberta, sem saber o que responder.

— Mas que bobagem você está dizendo, Fonchito – murmurou por fim, ainda sem se conseguir recompor inteiramente. — Que eu não te amo? Mas, coração, você é como um filho para mim. Eu por você…

Ela calou-se, porque Alfonso, deixando cair o seu corpo sobre ela e abraçando-a pela cintura, começou a chorar. Soluçava, a cara apertada contra a barriga de dona Lucrecia, o pequeno corpo sacudido pelos suspiros e o ofegar ansioso de um cachorrinho faminto.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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