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O filme argentino “O Cidadão Ilustre” (título em português), dos realizadores Mariano Cohn e Gastón Duprat, é um drama/comédia de 1h58min com os atores Oscar Martinez, Dady Brieva, Andrea Frigerio e Nora Navas. Este foi lançado em 2017, e está disponível na plataforma de streaming Netflix.

O argumento da película é incrível: um destacado escritor argentino, Daniel Mantovani, radicado há quarenta anos na Europa, ganha o Prémio Nobel da Literatura e na solenidade de Estocolmo, aparece meio amargurado e num discurso seco, afirma que agora que ganhara a distinção certamente não produziria mais nada que prestasse – o próprio já desconfiava dos seus últimos trabalhos. Este quadro depressivo e bastante ácido é bem representado pelo excelente Oscar Martinez e, a seguir, como não poderia deixar de ser, o mesmo é convidado para entrevistas, homenagens, festas, enfim, agora a coisa está dada: ele é uma celebridade.

Recusa todas as tarefas ao lado da sua agente literária, e guarda apenas uma insólita correspondência da província de onde tinha saído na Argentina: Sala. Até a agente se surpreende com esta resposta positiva, e ele exige viajar sozinho. Aceitará o título de cidadão honorário de Sala e revisitará o seu passado.

Andrea Frigerio (Irene) e Oscar Martínez (Daniel Mantovani)

O contraste entre a Europa e o interior de uma cidadezinha da América do Sul é gigantesco: o prefeito escala um motorista meio idiota para ir buscá-lo ao aeroporto e a parte de comédia começa ali, quando o carro avaria e ficam os dois à espera de socorro na berma da estrada, o provinciano tem que fazer as suas necessidades fisiológicas e acaba a rasgar algumas páginas do livro do ilustre escritor. Quem disse que a literatura não serve para mais algumas coisas? A província é descrita como… a província: os encontros são frios e formais, o prefeito exige que ele desfile num carro dos bombeiros ao lado da Miss Sala e a cena chega a ser constrangedora.

O sujeito pretende tirar proveito político de tão ilustre visita. Além de algumas leituras públicas, existem os momentos de enternecimento na trama, como quando o escritor se envolve sexualmente com uma bela rapariga, sem saber que ela é filha do seu antigo amor de juventude. Os encontros são surreais de tão constrangedores, mas os diálogos com o agora marido dela, Antonio, são incríveis: ele é o tipo de sujeito que se deu bem na vida da pequena cidade. Feliz nos negócios, feliz nos casos extraconjugais incluindo visitas a prostíbulos e amante da caça, sendo que tem por hábito sair com o namorado da sua filha, outro tipo imbecil, para as caçadas.

O escritor parece julgar tudo o tempo todo, entendendo que a cidade querida que ele mantinha no seu íntimo já não existia mais. Forçado a ser jurado num concurso de pinturas, é orientado pelo prefeito a escolher um dos seus protegidos, um artista medíocre e isso já parece demais para o nosso aborrecido protagonista. Na solenidade, desanca a tela e o seu autor e ainda encontra tempo para repreender os agentes municipais da cultura, afirmando que muitos medíocres tornam a própria cultura medíocre, e que os verdadeiros artistas não arvoram para si a condição de serem arautos.

Dady Brieva (Antonio)

Já podem perceber que o excesso de sinceridade, quase um ‘sincericídio’, não tornará a sua vida tranquila na cidade. Persona non grata, é descoberto o seu caso com a jovem e a mãe fica furiosa, lançando-lhe impropérios. Sai fugido de Salas, para ressurgir numa noite de autógrafos onde trata desta visita em questão. Realidade ou ficção?

Um ponto interessante da longa-metragem é a fala do quanto de personagens reais um escritor aborda nos seus romances, mesmo alterando os respetivos nomes. Observa-se aqui um poder incrível e a perceção de que um autor se pode vingar na elaboração da trama, aproveitando elementos da sordidez e da mediocridade de gente da província, que só sabe viver a sua “vidinha” banal e chinfrim. Num dos confrontos dialéticos, ele inclusive é acusado disso, e sugerido que retorne à Europa para perto de pessoas mais civilizadas.

Acaba que “O Cidadão Ilustre” não corresponde às expectativas do prefeito e da população como um todo, mas é saboroso perceber as semelhanças com a vida real, onde bajuladores tentam sempre tirar uma casquinha do brilho de um filho de determinado sítio.

Só para fazer um paralelo com a vida real, imagino neste instante a sociedade tradicional e religiosa portuguesa, que defenestrou José Saramago (1922-2010) por conta do seu polémico “O Evangelho Segundo Jesus Cristo“, ter que segurar o despeito e antipatia por ocasião do seu Nobel e de todas as outras merecidas distinções. Dentro de cada um de nós, existe uma Sala que merece ser extirpada de forma a deixar sobressair os nossos sentidos e sentimentos mais universais.

“O Cidadão Ilustre” é uma película muito boa.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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