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Porque A Arte Somos Nós

No início do ano passado, um pai de um amigo meu morreu. Fui informado via Whatsapp. Fiquei sentido pelo meu amigo, mas não me dispus a ir ao velório. Não lido bem com a morte, não sei o que dizer (certamente o correto é não dizer nada mesmo), enfim, é uma situação totalmente constrangedora. Até pelo facto de não passar de um cliché aquela fala de que “sentimos muito”. Da boca para fora, ninguém sente muito porcaria nenhuma e, sendo a dor intransferível, fica comprovada a minha tese.

Mas vá lá: dias depois, encontrei o meu amigo e comentei com ele o parágrafo acima. Não como forma de me justificar (não me justifico por nada), sou autêntico e para além das minhas atitudes, caberão sempre as interpretações que não caberão a mim julgá-las. Como terei controlo sobre as coisas que as pessoas pensam sobre mim? Mas conversando com ele, e com muito bom humor, encontrei-o assim também e passamos a comentar os malditos clichés dos velórios. As pessoas sem noção foram o nosso alvo.

Imaginem um filho tendo que aguentar pérolas como estas (entre parênteses as minhas sarcásticas observações): “Coitadinho! Ele estava a sofrer muito. Foi descansar!” (Preferirei continuar sempre a viver, mesmo que exausto); “Mas o importante é que você cuidou dele direitinho. Foi um excelente filho!” (O que há de mais nisso? Há uma outra atitude a fazer a não ser cuidar dos nossos progenitores?); “Todos nós vamos morrer um dia” (essa é a melhor, que cabeça pensante com uma antevisão tão lúcida a respeito dos factos!) e tantas outras sentenças que só fazem acreditar acerca da estupidez do ser humano.

Contou-me o amigo sobre parentes fingidos que, em vida, pouco visitaram o seu pai, mas que se mostraram “abalados” e chorosos. Evoco aqui a ideia de Jesus, o Nazareno: “Sepulcros caiados, bonitinhos e pintadinhos por fora, podres por dentro”. Que coisa lamentável!

Mas uma coisa totalmente fora de propósito é a tortura a que os presentes submetem os infelizes parentes do defunto. Imaginem o filho ter que responder uma, duas, três, quarenta e seis vezes aos motivos pelos quais o seu pai morreu. Como um filósofo e pensador prático das coisas da vida, sugiro na programação do velório uma palestra com hora agendada para que um familiar suba a uma tribuna, dê um depoimento e a seguir ocorram as perguntas, numa entrevista coletiva.

Eu, já conhecido pela minha paciência, respondi, por ocasião do falecimento da minha mãe, que a coitada havia falecido atropelada por um camelo no deserto do Saara. Não sei o porquê, mas a senhora enxerida saiu a resmungar, julgando-me ser mal-educado. Ora pois (como dizem os portugueses), a minha mãe não poderia ter sido atropelada por um camelo no deserto do Saara?

Estudando um pouco a cultura mexicana, fiquei a saber que a morte é entendida como uma passagem, uma celebração, e a julgar pelo aspeto prático do ciclo biológico, isso é bem mais plausível e dentro dos padrões estabelecidos. Há inclusive um filme de animação, excelente por sinal, que trata dessa questão, “Coco” (2017), que visualizei e desde já recomendo.

Lembro-me aqui da célebre frase do humorista brasileiro Chico Anysio (1931-2012), que afirmou: “Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho é pena de morrer“. Também penso assim: é sempre lamentável não vivermos uma quantidade infindável de anos para aproveitarmos tantas coisas boas que a vida nos oferece.

E você, leitor, o que pensa disto tudo? E aproveitando: como morreram os seus avós?

Marcelo Pereira Rodrigues

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