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Uma das peças mais influentes da literatura durante os anos 50 foi o livro de poesia de Allen Ginsberg “Uivo e Outros Poemas” (Relógio d’Água, 2014, Lisboa), de seu título original “Howl and Other Poems“. Através do uso de metáforas, simbolismos e outros dispositivos literários, Ginsberg retransmite algumas das suas opiniões políticas e sociais no seu poema “Uivo”. Rapidamente, tornou-se a única obra literária a encapsular os ideais da geração beat, fazendo do poema o seu “manifesto”.

“Uivo” está dividido em três partes, cada uma carregando um tema das consequências pessoais e sociais em tentar alcançar a transcendência por meio de uma cultura materialista; este pode ser visto no tom, aparência, e simbolismo utilizado por todas as partes. Uma breve análise de cada seção vai mostrar como cada parte reflete este tema.

A primeira parte do poema de Ginsberg é uma dedicatória àqueles que são oprimidos pela incapacidade, ou desejo, em conformidade com os ideais da sociedade e o seu comportamento auto-destrutivo, para transcender essa conformidade. Normalmente, quando as pessoas se recusam ou não se podem conformar, elas são, muitas vezes, ridicularizadas; isso leva a problemas sociais e emocionais que podem resultar no abuso de drogas, na atividade criminosa, na promiscuidade sexual, e noutras atividades que continuam a sua exclusão da sociedade convencional. Esta situação pode ser observada nos três primeiras versos de “Howl”:

“Eu vi as mentes mais brilhantes da minha geração destruídas pela loucura, famintas histéricas nuas,

a arrastarem‐se na aurora pelas ruas de negros em busca de uma dose feroz,

gingões de angélicas cabeças ardendo pelo velho contacto celeste com o dínamo estelar na maquinaria da noite,…”


“Uivo e Outros Poemas” (p. 15)

Estas estrofes também ofereceram um tom de desespero graças às suas imagens de conotativo negativo. Isto continua nas estrofes 15-16 com: “que eram filados pelas barbas púbicas quando regressavam via Laredo com marijuana à cintura para Nova Iorque (…)” (p. 15). Esta parte é escrita porta cada estrofe com um ritmo enfatizado pela palavra Who (isto na versão original em inglês, em português o sujeito é muitas vezes implícito), funcionando quase como uma batida no início de cada verso, ou seja, o uso da anáfora; também aqui é reconhecível a importância da música na geração beat. O tom de desespero continua na segunda parte.

Allen Ginsberg

A segunda parte deste poema usa Moloch como um símbolo para a razão, para os sentimentos de alienação e ainda para o desespero presentes na primeira parte. Moloch, era um falso deus do Velho Testamento que, no poema “Uivo”, simboliza os falsos valores, a falência espiritual e social, e o perigo tecnológico da década de 1950 que ameaçava engolir toda a juventude da América. Por outras palavras, Moloch é usado como uma metáfora para tudo o que os beatniks foram contra.

Por exemplo, na estrofe quatro e sete: “Moloch a pedra imensa da guerra! Moloch os governos atónitos!” (p. 31), Moloch é a causa da guerra e de um governo improdutivo; “Moloch cujo sangue é dinheiro circulante” (p. 31), Moloch é o capitalismo; e ainda, “Moloch cujo amor é óleo interminável e pedra! Moloch cuja alma são bancos e eletricidade!” (p. 31), metáforas para a industrialização. Portanto, Moloch é a razão para todas as coisas más, e de acordo com os beatniks, isso inclui o materialismo, a apatia para o indesejável, o industrialismo e a conformidade.

Finalmente, a terceira e última parte deste poema aborda diretamente um amigo íntimo do autor, Carl Solomon. Ginsberg e Solomon conheceram-se quando eram pacientes na Columbia Presbyterian Psychological Institute, tendo também a mãe de Ginsberg sido diagnosticada com esquizofrenia quando era mais jovem; isso permitiu aos dois construir uma relação muito próxima com base na loucura. Na terceira parte do poema, Solomon simboliza todos os membros oprimidos da sua louca geração conduzida pelo mundo em que são forçados a viver – esta refere-se às pessoas ridicularizadas.

Carl Solomon

Ao longo da terceira parte, a frase “Estou contigo em Rockland” é o início de cada estrofe; isto simboliza uma solidariedade para com Solomon e outros em semelhantes situações. A repetição desta frase, no início de cada estrofe, destina-se a transmitir um sentimento de solidariedade para com os leitores do poema. A dicção usada em “Uivo” é uma linguagem de rua; isso dá ao poema um ritmo áspero com tons de jazz que imita o contraste entre os ideais aceites e não aceites naquele tempo.

Este tipo de linguagem é especificamente usada para mostrar esse contraste, e literalmente choca o público ao ver a realidade sem o glamour. Todas as três partes deste poema expressam o sentimento da geração beat: a opressão, a não conformidade, e a rebelião.

João Filipe

Rating: 4 out of 4.

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One thought on ““Uivo e Outros Poemas”: Um grito de revolta

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