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Porque A Arte Somos Nós

“Enemy” (2013) é baseado na obra de José Saramago, “O Homem Duplicado” (2002), e é altamente interessante do ponto de vista simbólico, uma vez que permite a junção de vários planos narrativos, todos eles com uma ligação muito própria e acertada. A realização coube a Denis Villeneuve e o argumento a Javier Gullón. Quanto ao plot, tudo começa quando um professor de História, Adam (Jake Gyllenhaal) se apercebe que existe um ator exatamente igual a si, fisicamente, chamado Anthony.

Tudo isto espoleta naturalmente algo de muito estranho dentro de si, forçando-o a questionar as suas próprias conceções da (sua) realidade. Tudo isto, naturalmente, faz com que toda a sua vida perca um pouco o sentido, uma vez que uma situação como esta cria uma dura interrogação quanto à sua existência.

À medida que o filme se vai desenrolando, percebemos que a aranha se assume como uma figura simbólica muito enigmática em toda a narrativa, algo que felizmente só entendemos, ainda que superficialmente, na conclusão da história — e digo felizmente porque a história em si não é forçada a revelar esse aspeto para ter sentido: ela por si só, sobretudo na sua obscuridade, consegue ter um tom extremamente atrativo e convidativo, que o questionamento inerente ao simbolismo se desvanece e o espectador só quer é mesmo prosseguir com a jornada.

Adam e Anthony (Jake Gyllenhaal)

Uma questão fundamental nesta história tem que ver com as relações que os dois “gémeos” têm. No caso de Anthony já bem consolidadas e com um filho a caminho; no caso de Adam, uma relação muito pouco consistente e sem grande coesão emocional, isto é, extremamente casual. Neste caso importa realçar também a sua fotografia, que consegue acompanhar com mestria os ritmos da banda sonora. Por outro lado, o que este filme tem de mais interessante é sem dúvida o seu tom intelectual, a sua riqueza contemplativa e um ator altamente dignificante para a sétima arte, como é Jake Gyllenhaal: sem dúvida, um dos atores mais versáteis e sui generis da atualidade.

Uma das críticas que se pode fazer a “Enemy” penso que se prende, fundamentalmente — ainda que um pouco desculpáveis com o facto do argumento ser adaptado —, com a questão da narrativa ser um pouco previsível (e não necessariamente limitada) e com o facto de chegarmos ao fim do filme e não conhecermos realmente bem as personagens, além de todo o sofrimento e inquietude que são altamente bem espelhados no ecrã, sugerindo, portanto, um ligeiro défice de caracterização e de backgrounds intrapessoais (ainda que isso possa ferir a mística e o mistério altamente atrativo do argumento).

No entanto, todas estas referências credíveis do ponto de vista mais analítico em nada ferem aquela que é uma das adaptações mais bem conseguidas num género dramático mais rico em suspense.

“Enemy” (2013)

Posteriormente, relativamente à beleza mais interpretativa deste filme, penso que a aranha tem o simbolismo do próprio medo do compromisso, uma vez que nasce sobretudo quando a personagem Adam se desloca um pouco do seu estilo de vida mais depressivo, de solidão e se vai agarrando, quer a um sentido de vida mais apreciável, quer naturalmente à ligação que consegue estabelecer com uma pessoa à sua volta. Importa frisar que o simbolismo da aranha não consta na obra de José Saramago, o que me faz ver este “Enemy” como uma obra bastante audaz, que se consegue reinventar e traçar o seu próprio caminho.

E esse aspeto em conseguirmos ser genuínos e criativos está também patente na forma como a personagem de Adam lida, mais para o final, com o desenlace mais trágico das circunstâncias. Desta feita, “Enemy” é um verdadeiro inimigo das más histórias e das artes mais rasas, constituindo uma experiência que, devido à sua coesão muito interessante, certamente tão cedo não será esquecida.

Tiago Ferreira

Rating: 3.5 out of 4.

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