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Porque A Arte Somos Nós

Há uma família de jogos particularmente interessante de ser falada e que se situa num género a que se dá muitas vezes o nome de “narrativas interativas” (à falta de um nome melhor). Ainda que não haja um modelo estrutural para a categoria de jogos, é possível traçar algumas características que são habituais à maioria dos seus integrantes. São jogos onde é esperado que a história se sobreponha à jogabilidade (ou até aos gráficos), e onde esta primeira, simultaneamente, não seja predeterminada e onde as diferentes possibilidades narrativas decorram (direta ou indiretamente) do jogador.

Os momentos de intervenção podem incluir escolhas de diálogos (escolhendo uma fala entre várias possibilidades), decisões relativamente às ações de uma certa personagem (por exemplo, escolher entre atender um telefone ou não) ou, inclusive, através de quick time events, muito usados em sequências de luta. Outra exigência feita a estes jogos é, qualquer que seja o rumo dos acontecimentos, a história deve proporcionar uma experiência consistente, sem contradições e satisfatória no sentido em que decorra logicamente daquilo que foi decidido pelo jogador.

Os jogadores alvo desse grupo são sobretudo jogadores mais casuais, que até preferem cinema ou televisão aos jogos, e que procuram acima de tudo uma história dinâmica ao invés de um desafio intelectual ou de skill. A possibilidade de jogar uma narrativa interativa permite dar ao jogador poder para interferir diretamente com as escolhas das personagens, na expectativa de que as mesmas alterem o decorrer dos acontecimentos e, em última instância, o seu destino.

Ao invés de ver um filme ou de ler um livro com histórias fixas, estes jogos permitem também moldar a história às preferências do jogador e proporcionar diferentes emoções em diferentes campanhas jogadas. No âmbito das narrativas interativas, um dos nomes mais marcantes na área gaming é o de David Cage, fundador do estúdio Quantic Dream, especializado neste tipo de jogos narrativos não-lineares.

David Cage (diretor criativo de “Heavy Rain”)

Um dos primeiros jogos de David Cage a conseguir captar atenções mediáticas foi “Heavy Rain”, lançado pela primeira vez em 2010 como exclusivo PlayStation 3, tendo sido relançado em 2016 para PlayStation 4 e em 2019 para PC. O jogo encaixa-se na categoria de thriller/mistério, relacionando-se em grande parte com a investigação dos crimes de um assassino em série, denominado pelos jornais como Origami Killer. Os métodos desta personagem, cuja identidade é inicialmente desconhecida para o jogador, consistem em raptar crianças durante o outono e deixá-las a afogar na própria água da chuva, colocando finalmente uma orquídea e um origami junto ao corpo.

“Heavy Rain” é jogado em modo single-player na terceira pessoa, onde são controladas alternadamente quatro personagens, ao longo de mais de 50 capítulos possíveis. Estas personagens são: Ethan Mars (Pascal Langdale), pai de Shaun, a mais recente vítima de rapto do Origami Killer; Norman Jayden (Leon Ockenden), investigador do FBI encarregue de encontrar o assassino e de salvar Shaun; Scott Shelby (Sam Douglas), um investigador privado que procura pistas sobre o assassino ao visitar as famílias das suas vítimas; e Madison Paige (Jacqui Ainsley e Judi Beecher), uma jornalista que a certo ponto cruza o seu caminho com Ethan Mars e se torna relevante para o caso.

Ethan Mars (Pascal Langdale), um dos protagonistas do jogo

Ao longo do jogo as ações tomadas vão permitir que a narrativa progrida de maneiras distintas, algo que poderá causar encontros inesperados entre as personagens controladas, sempre com o objetivo maior de salvar o jovem Shaun. O brilhante uso dos quick time events em situações mais tensas servem para explicitar que nenhuma personagem está a salvo e que poderá não chegar ao fim do jogo com vida. Outra característica interessante é a de alguns pensamentos soltos das personagens poderem ser ouvidos em certas circunstâncias. Muitas vezes estes poderão ser contraditórios, algo que indicia desde logo que os respetivos narradores poderão não ser de confiança.

Como é quase requisito neste género de jogos, a narrativa e as personagens são sólidas, com poucas incongruências, independentemente dos caminhos escolhidos. Nos aspetos negativos, a dobragem está longe de ser perfeita e os gráficos mereciam alguma melhoria, sobretudo nas versões PS4 e PC. Contudo, são críticas fáceis de se fazer quando há um distanciamento de 10 anos, o que não permite grande imparcialidade face às novidades tecnológicas que surgiram na última década.

Por outro lado, muito daquilo que são as críticas positivas a “Heavy Rain” e que tornaram o jogo um marco no género são as inúmeras possibilidades de finais. Num total de 18 epílogos, são mostrados cerca de quatro no final de cada jogo (normalmente um para cada personagem controlada), tornando cada jogo completo uma experiência única e individualizada, onde as escolhas realmente importam.

Luís Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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