OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Após quatro anos do fim do fascismo em Portugal, o país parece ver a luz em termos de prog-rock. José Cid, conhecido pela sua música ligeira e pop-rock, culmina toda a sua experiência e talento neste trabalho.

Gravado em 1978, “10.000 Anos depois entre Vénus e Marte” baseia-se na história de um homem e uma mulher que fogem do planeta Terra, consumido pela poluição e corrupção, sendo agora inabitável. Ambos assistem ao caos causado pelos humanos que nunca mais viram o Sol. Esses procuram uma saída das horríveis consequências dos seus actos. O casal, já no espaço, descobre Mellotron, o planeta fantástico. Aí, ao conviverem com os habitantes alienígenas, decidem começar uma nova civilização. Uma verdadeira narrativa de ficção de científica.

“10.000 Anos depois entre Vénus e Marte”
José Cid ao vivo no Festival RTP, em 1978

Quanto à música, é inacreditavelmente complexa, visto que estamos a falar do José Cid. Juntamente com a mãe do rock português, temos o lendário baixista Zé Nabo, o baterista Ramon Galarza, e o guitarrista Mike Sargent. Faixa após faixa, encontramos inúmeras camadas de sintetizadores e do Mellotron, que enchem este álbum de cor e de toda aquela atmosfera espacial – claramente uma sonoridade semelhante à de The Moody Blues. Além disso, o trabalho de teclas de José Cid é incrível. Desde rápidas passagens melódicas a paisagens sonoras no espaço, Cid abre o jogo e deixa-nos uma inesquecível faceta que rapidamente se desvaneceu após o lançamento deste disco.

Para a maioria dos críticos, este é visto como o melhor álbum alguma vez gravado em Portugal. “10.000 Anos depois entre Vénus e Marte” é uma verdadeira jóia no rock dos anos 70, feito em português. A cativante narrativa, a complexidade e a variedade musical, tal como a performance de alto nível, tornam este disco num ponto de referência no prog-rock em geral.

Um esquecido trabalho que a própria Orfeu (a gravadora para a qual José Cid tinha contrato) não teve fé no projeto, sem mencionar que a capa, com um livreto colorido de belas, obras seria mais cara. Tendo em conta este factor, José Cid concordou em não receber royalties. Ficou rapidamente descatalogado e, desde então, tornou-se um importante e raro disco por entre coleccionadores.

João Filipe

Rating: 4 out of 4.

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from OBarrete

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading