O BARRETE

Porque A Arte Somos Nós

Quando vemos o futuro a fugir pelas nossas mãos, porque não aproveitámos o presente, percebemos que algo está mal na nossa vida: a nível de valores, a nível de mentalidade; entendemos que há muita gente a dar-nos amor, mas nós não vemos, não conseguimos ver – ou melhor, por vezes, escolhemos não ver. Kun (voz de Jaden Waldman), o protagonista desta história de animação, percebeu isso mesmo.

Ao longo da narrativa, esta criança que vê a entrar na sua vida uma irmã, Mirai – que dá o título à obra e que significa “futuro” –, e ao início a convivência não foi a mais ortodoxa. Kun é um rapaz mimado, que quer atenção, mas que quem o conhece sabe que ele tem bom fundo, só precisa que alguém lhe mostre “a verdade”. A narrativa vai mostrando como é viver num ceio de uma família, as complicações entre pai e mãe para lidar com dois filhos, sobretudo em fases etárias um pouco distintas, enriquece o enredo de uma forma bastante atractiva; a acção passa-se praticamente toda na casa, mas exponenciada por um universo de imaginação.

Numa altura em que Kun reagia a uma situação com uma birra, num desvio momentâneo até ao pequeno jardim de sua casa, percebe que, quase instantaneamente, é levado para um pequeno (novo) mundo, de fantasia (dizemos nós, prima facie), onde consegue ir buscar as lições necessárias para “voltar ao mundo real” e desfazer as injustiças que tinha feito. Há, portanto, um crescendo emocional, uma maturidade que se vai moldando de forma bastante ampla e exponencial, e que mostra que as crianças de hoje, e de ontem (desde sempre), precisam de sair da sua esfera, quer através da sua criatividade ou interpretação “fantástica” do real, de forma a conseguirem ter impacto no seu universo físico. Metafisicamente, como em quase todas as grandes obras, este filme dá-nos: 1.º uma lufada de ar fresco; 2.º uma porta para um novo mundo, por vezes difuso e difícil de ser desmistificado.

Naturalmente, há todo um espanto para com a criança, que se vê a contactar quer com viagens pelo passado (imaginário, ou não), quer por transportes para um futuro, num vaivém temporal, que enriquece de forma bastante interessante, o enredo. Este oferece uma vivacidade, intelectualidade, e espiritualidade capazes de prender o espectador (emocionalmente falando) ao ecrã. E a dado momento até, no meu caso, ir torcendo, incessantemente pela vitória épica do protagonista.

Portanto, este filme, além de mostrar que todas as respostas mais eficazes e certeiras são as interiores, tenta também guiar-nos no desafio que o realizador e argumentista Mamoru Hosoda propõe: por vezes, abandonar o mundo real e criar o nosso próprio destino… quanto mais não seja aquilo que somos, numa procura amável e humilde por significado.

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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