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Porque A Arte Somos Nós

Se há coisa que a sétima arte permite, além de uma imensidão de opiniões e sensibilidades, é juntar tudo na sua manifestação. Nesse processo, há sempre quem reconheça nas películas determinados estilos, e isto nunca é consensual – não estaríamos nós a falar de uma das mais belas demonstrações artísticas. Eu enquanto cinéfilo e apreciador de um bom debate cinematográfico, resolvi juntar nesta reflexão aquele que para mim seria “o filme perfeito“. Mais uma vez, tudo isto resulta de uma opinião muito pessoal, e irá centrar-se, essencialmente, nos realizadores que sempre imprimem um carácter/vertente mais pessoal nas suas criações: parte, portanto, da ideia de aglomerar o que de mais forte cada um dá e transmite ao espectador, sob (naturalmente) o meu olhar crítico. Com isto, acabo por partilhar aqueles que para mim são os predilectos maestros do delírio cinematográfico.

Para mim, um filme perfeito teria de ter, obviamente, a musicalidade de Damien Chazelle – que é conhecido sobretudo por “Whiplash – Nos Limites” (2014) e “La La Land: Melodia de Amor” (2016) –, sobretudo porque consegue fechar os seus filmes sempre de uma maneira tanto aberta como especulativa, sem nunca ser muito objectivo, nem muito óbvio, reconhecendo a importância do papel do espectador enquanto parte integrante da obra, para ela assim poder existir e “voar mais alto”. O cineasta foi o mais jovem a receber a estatueta dourada de Melhor Realizador e, apesar de ser um cineasta jovem (35 anos), tem uma visão muito clara do mundo e não tenta dar a ideia de um universo perfeito… A vida tem coisas boas e más. É, acima de qualquer espontaneidade filosófica, um realista.

Mas, claro, não podia deixar de ter a contribuição de Alejandro G. Iñárritu para dar um contexto mais cru, irónico e metafórico a toda a narrativa, que juntando os seus diálogos característicos repletos de dimensão intra-pessoal, tem na sua veia de visionário o apanágio da sua simplicidade enquanto argumentista. Este tem uma visão muito terra-a-terra das coisas, mas faz sempre questão de manter uma coerência bastante obscura nas linhas dramáticas e na forma de contar a sua história. O realizador mexicano, conhecido fundamentalmente por “Birdman” (2014) e “The Revenant: O Renascido” (2015), conseguiu o feito inédito de arrecadar em dois anos consecutivos a estatueta de Melhor Realizador, na grande noite dos Oscars.

Por último, mas não menos importante, temos Richard Linklater, realizador da trilogia “Before” (1995-2013) e de “Boyhood: Momentos de Uma Vida” (2014), traz a este “filme perfeito” uma vertente mais romântica, sensual e sentimental, capaz de dar um aspecto mais humano, e não necessariamente lamechas; mas sim, com simplicidade, dar-nos um lado mais sensorial do que propriamente de reflexão (que essa, no entanto, existe, e vem sobretudo a posteriori). Mais uma vez, filosófico, mas num sentido mais emotivo que propriamente cognitivo, este cineasta sabe daquilo que quer falar, pois é capaz de o imortalizar em linguagem cinematográfica (sobretudo se «amor» for a palavra de ordem) e desencadear toda uma relação filme-espectador que nos transporta para outra dimensão artística (catarse).

Podia, obviamente, falar de muitos mais, mas tanto pelo timing, como pela forma marcante como o seu magnum opus espoletou em mim um crescimento enquanto analista e cinéfilo. Julgo ser uma homenagem justa juntar estes três génios num filme, não só porque com certeza se tornaria um fenómeno “literário”, como também faz sempre bem sonhar com a arte – se esse não for o seu amplo e verdadeiro propósito, é porque deixou de a ser.

Bons filmes.

Tiago Ferreira

Pintura de David Hockney, “Retrato de um Artista (Piscina com Duas Figuras)” (1972)

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