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Porque A Arte Somos Nós

O Universo é infitito, e nós pertencemos a esse mesmo Universo“. É com esta ideia que o realizador Gaurav Seth constrói uma narrativa onde as quatro principais personagens se cruzam com versões de si mesmos, no mesmo tempo e espaço. A forma como tal acontecimento é possível é-nos explicado (em parte) com uma teoria científica que envolve partículas e moléculas presentes na água. O argumento é interessante e a película desenrola-se de uma forma quase sempre cativante, contudo, certos aspectos mais “reais” na compreensão deste fenómeno podiam ter dado mais densidade à mensagem pretendida.

Quatro estudantes, dois rapazes e duas raparigas, estudam a hipótese de haver outros mundos iguais ao nosso. Quando uma rapariga do grupo morre e regressa depois, percebem que as suas experiências, afinal, podem ter resultado.” Estes quatro personagens são Gerry (Munro Chambers), Amy (Sandra Mae Frank), Danny (Robert Naylor) e Loretta (Paloma Kwiatkowski). A prestação das quatro principais figuras é muito boa, acrescentando intensidade à premissa da obra. Amy, pelo menos na realidade “principal”, é surda e muda, merecendo assim uma apreciação especial: performance bem conseguida, mas por vezes fica a impressão que certas intervenções são um pouco forçadas.

O tema das realidades alternativas e das diferentes dimensões do tempo não é novo, mas “Entangled” tenta oferecer um caminho diferente, relacionando esta ficção com a água – uma fonte de energia renovável que com certeza poderá conter diversas chaves para o nosso futuro. Não obstante da sustentabilidade, o filme procura chamar à atenção do seu público para outro tipo de reflexão: a nossa identidade. Na narrativa de “Entangled”, os dois “Eu” nunca conseguiriam vingar no mesmo presente, sendo que um deles teria de inevitavelmente morrer: analogia feita no filme com dois peixes dourados. Independentemente de ser a mesma pessoa, havia sempre algo de diferente. Muitas vezes reflectimos sobre a nossa existência, tomando por medida as nossas acções no tempo, especulando sobre o que poderia ser diferente se no passado tivesse-mos optado por outros caminhos (comparativamente aos que realmente tomamos)…? Conseguiríamos lidar com um ser igual a nós, sem termos qualquer tipo de controlo sobre ele? Devemos aceitar as consequências das nossas escolhas, tendo a consciência de que para melhorar ou mudar algo, será sempre no presente e no futuro.

Escrito por Doug Taylor e Michael MacKenzie, o filme tenta uma nova abordagem ao tema da ficção científica, sendo que Doug conta já no seu currículo obras como “Splice – Mutante” (2009) ou “A Christmas Horror Story” (2015). Nota bastante positiva para a cinematografia do filme, com planos capazes de nos incorporar no olhar dos personagens, e ao mesmo tempo criar uma maior adrenalina ao espectador nas situações de maior tensão. O grande responsável por este trabalho é Ivan Gekoff, que chegou a trabalhar com Andrei Tarkovsky no filme “Stalker” (1979). O realizador, Gaurav Seth, já havia sido premiado no Fantasporto com o Prémio da Crítica, graças ao filme “Prisioner X“, em 2016.

Dentro do cinema fantástico, “Entangled” mostra-se como um filme mais híbrido, pois procura não esquecer a simplicidade da realidade e dos laços que unem as pessoas, quer sejam amigos, família, ou até a nós mesmos. Penso que acabamos sem compreender muito bem o ponto de vista científico que despoleta todos os acontecimentos ao longo da história, pois seria mais apelativo para o público fundamentar melhor este aspecto, tendo em conta a qualidade do argumento. Com certeza, esta película será um dos destaques da presente edição do Fantasporto.

Para mais informações sobre o festival, carrega AQUI.

Rating: 3 out of 4.

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