O BARRETE

Porque A Arte Somos Nós

Não quero ser, de todo, cliché, mas nos dias que correm, enaltecer a importância da leitura é totalmente peremptória. É larga a percentagem de pessoas, em Portugal e não só, que “rejeitam” a oportunidade de conhecer o mundo, e a amplitude da cultura, através dos livros. Eu próprio reconheço que sou um leitor “indisciplinado”, no sentido em que se não me obrigar, se não der aquele empurrãozinho, tendo a deixar andar e as leituras ficam, literalmente, na gaveta. Mas importa frisar, os livros existem, fundamentalmente, por duas razões: para dar prazer ao leitor, mas também cultura e conhecimento. Eu confesso que defendo que um bom livro deve partir da segunda característica, e se for mesmo bom, por acréscimo, trará a primeira, mas todos nós sabemos que a nossa realidade não é assim. Hoje em dia, além de quase toda a gente conseguir escrever um livro, e com isto faço uma crítica ao critério editorial (ou a falta dele) das editoras, a maioria escreve para as massas. A maioria dos livros, e com isto não atribuo necessariamente o rótulo de obra – precisamente pela falta de poesia com que são criados – resultam de jogos de interesses, de “histórias que vendem”, de narrativas já batidas mas que suscitam afluência.

Não estou com isto a criticar o leitor, porque temos muito bons leitores em Portugal, mas também temos que admitir que, infelizmente, não só aqui como a nível mundial: 1.º há pouca gente que lê; 2.º os que lêem, lêem pouco e obras “fáceis”; 3.º os que lêem grandes e variadas obras, vivem só para aquilo. Encontrar um equilíbrio é sempre difícil. Como tudo na vida, claro. Mas, acima de tudo, com isto quero dizer que estamos a atravessar uma grande crise de ideais, de valores… uma conjuntura de autêntica ignorância. Nesse sentido, José Saramago alertou que nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como hoje, no sentido em que preferimos ver sombras, do que reconhecer que há muito trabalho a fazer. Até dá o exemplo dos canais de televisão: actualmente, nas nossas casas temos cerca de 150 canais, então, este faz o paralelismo retórico “e se recebêssemos em casa todas as manhãs 150 jornais (físicos)? Que conclusões tiraríamos da leitura de 150 jornais?” É algo imensamente absurdo, a fusão desmedida da informação…

Miguel Sousa Tavares, nesse sentido, disse uma vez numa entrevista que “nós nunca soubemos tão pouco sobre tantas coisas“… E é tão verdade. Não é que não tenhamos os meios, a informação, mas é precisamente o contrário: temos demasiada informação, demasiadas coisas para fazer, sobre as quais pensar, que não sabemos lidar com isso – o excesso. A internet veio contribuir para isso, mas mais uma vez atravessamos algo que não foge à regra da maioria das coisas boas que acontecem no mundo: ser muito benéfico, mas relativamente à qual as pessoas não saberem dar o devido uso. E isto é transversal, por exemplo, ao uso excessivo de telemóveis na sala de aula por parte dos alunos (eu próprio, mesmo tendo consciência disso, sou culpado).

Com isto fugi um pouco ao tema, mas finalizo dizendo que devemos tirar tempo para tudo: para nos divertirmos, para lermos, para descontrairmos, para estudarmos o que quer que seja, para os nossos amigos, para viajar, para beber um café, para comer, para respirar (que é bem necessário), mas o fundamental de tudo é estar ciente que o mundo é tão infinito como a nossa ignorância. Nunca seremos capazes de saber tudo, e o nosso propósito na vida é conseguir sempre, embora seja algo tremendamente audaz, ir reduzindo o máximo a distância entre aquilo que se conhece hoje, aquilo que queremos conhecer e aquilo que desconhecemos.

Ler abre-te as portas para a vida.

Boas leituras.

Tiago Ferreira

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