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Porque A Arte Somos Nós

Quando falamos de Steely Dan, a única coisa que nos ocorre é: perfeição. Em 1972, os músicos Donald Fagen e Walter Becker, que já se conheciam desde 1967 e que também já desenvolviam alguns trabalhos musicais juntos, decidiram fundar os Steely Dan, e apenas tinham em mente a realização de uma sonoridade distinta no (vasto) panorama musical da época.

Rotulada como uma banda rock, sofreram influências várias na música que produziam, jazz, reggae, R&B ou blues são apenas algumas delas. É até um pouco difícil orientar a nossa audição para um som marcado, tal a fusão de estilos que a banda produzia, no entanto é consensual a classificação de jazz-rock.

A composição da banda sempre teve como pilar estes dois homens, Fagen e Becker, tendo os restantes membros que compuseram a banda “flutuado” à medida das necessidades. Por um lado, não era fácil trabalhar com estes dois senhores que exigiam um nível de perfeição acima da média, por outro, a decisão de, a partir de certa altura, apenas fazer trabalho de estúdio também não agradava a todos, mas já lá vamos! Tudo isto valeu-lhes a menção por parte da Rolling Stone de “Os perfeitos músicos anti-heróis dos anos setenta“.

Na linha da perfeição já atrás referida, um dos grandes objectivos desta dupla era que o ouvinte conseguisse distinguir o som dos vários instrumentos que intervinham nas composições sonoras gravadas, o que exigia um elevadíssimo grau de precisão no trabalho de estúdio. É nesta linha que surge, em 1972, o primeiro trabalho “oficial” da banda (isto porque já tinham editado, sem grande sucesso, dois singles, Dallas e Sail the Waterway), “Can’t Buy A Thrill”.

Trabalho ainda marcadamente rock, tem nos temas Do it Again e Reelin’ in the Years os seus maiores sucessos. É também na sequência deste primeiro trabalho que David Palmer (coros) entra em conflito com a banda, uma vez que na tournée de apresentação, Donald Fagen recusa-se a cantar ao vivo os temas gravados em estúdio, pois dizia não se sentir à vontade. Após esta tour, imediatamente antes da entrada em estúdio para a gravação do segundo álbum, Palmer abandona a banda.

Este segundo trabalho surge em 1973 e intitulou-se “Countdown To Ecstasy”, e não teve o sucesso do primeiro, sendo a opinião dos fundadores que tal se ficou a dever ao facto de ter sido concebido enquanto a banda estava em digressão… algo iria mudar em breve.

É então que Fagen e Becker decidem dedicar-se apenas a trabalhos de estúdio, abandonando as digressões de promoção ao vivo. Como consequência imediata desta decisão, grande parte dos músicos que com eles trabalhavam partiram para outros projectos, não ficando prisioneiros dos caprichos da dupla. Ainda assim, é logo no ano de 1974 que convidam músicos de excelência para a gravação do seu novo trabalho, “Pretzel Logic”.

A banda no seu santuário: o estúdio

Destes faziam parte Royce Jones (vocais e percussão), Michael McDonald (vocais e teclas), o baterista Jeff Porcaro e Walter Becker, guitarrista que iria permanecer com a banda por algum tempo. É precisamente deste trabalho que surge o tema de maior sucesso dos Steely Dan: Rikki Don’t Lose That Number, que iria atingir marcas bem interessantes nas tabelas americanas. Sem perda de tempo, em 1975 editam “Katy Lied”, tendo como suporte uma grande parte dos músicos utilizados no anterior trabalho, acrescidos de uma representativa secção de metais.

O problema subsistia, os músicos que acompanhavam a dupla insistiam na apresentação dos trabalhos ao vivo, mas tal não veio a acontecer e, novamente, muitos deles abandonaram o projecto. Este viria a revelar-se um trabalho de transição para a banda, apesar do cuidado colocado no som final.

Em 1976, na antecâmara daquele que , provavelmente, viria a ser o seu melhor trabalho de sempre, os Steely Dan editam “The Royal Scam” que vem na linha dos álbuns até aí apresentados. Haitian Divorce viria a ser o tema de maior sucesso, tendo tido alguma relevância nas tabelas e nas vendas, embora sem exageros.

E é, então, em 1977 que “dão à luz” a obra que viria a revelar o seu verdadeiro ADN, “Aja”. Trabalho marcadamente influenciado pelas notas jazz e em que, mais uma vez, se fazem acompanhar de excelentes músicos para as sessões de gravação. Resumidamente, duas palavras: Qualidade e Excelência. A pureza do som é absolutamente magnifica e as melodias são uma surpresa faixa após faixa. Peg e Deacon Blues são apenas duas referências deste trabalho que tem que ser ouvido num todo.

Esteve planeada uma digressão ao vivo, mas por divergências várias acabou por não se concretizar. De audição obrigatória.

Após muitas batalhas legais com editoras, e assinalando o fecho de um ciclo, em 1980 editam outro álbum de referência, “Gaucho”. De uma pureza de som incrível, este trabalho mostra-nos, uma vez mais, até onde esta banda conseguia chegar. Revelou-se um sucesso e teve em Hey Nineteen o seu maior sucesso nas tabelas da época.

Contou também, a título de curiosidade, com a colaboração de Mark Knopfler (guitarrista e líder dos Dire Straits) no tema Time Out of Mind. Este sétimo trabalho é uma prova definitiva da consistência da banda em termos de sonoridade, mas era também um ponto final neste período intenso de trabalho para Fagen e Becker. Era absolutamente necessário fazer uma pausa para arrumar as ideias.

Vinte anos passaram-se entre a gravação de Gaucho e o regresso aos estúdios para um novo trabalho. Pelo meio, Becker aproveitou para se “limpar” do uso de drogas, participando ocasionalmente em alguns projectos, ao passo que Fagen gravou um álbum a solo com um enorme sucesso e ainda produziu trabalhos da banda China Crisis, para além de outras actividades.

É então que os dois músicos se reúnem para uma tournée de suporte ao segundo álbum de Fagen (produzido por Becker), continuando na estrada com um grande número de músicos que permitiram que a banda, já como Steely Dan, viesse a gravar um álbum ao vivo intitulado “Alive in America”, que incluía gravações ao vivo realizadas entre 1993 e 1994.

No ano 2000, a banda inicia o milénio com a gravação de um novo álbum de estúdio, “Two Against Nature“, que se viria a revelar um êxito, tendo ganho quatro Grammys. Para além de uma tournée de promoção do trabalho, a banda editou também um DVD, “Plush TV Jazz-Rock Party”, contendo a “história” da sua existência com apontamentos de estúdio e ao vivo. Um regresso em grande! Em 2001, o trabalha da banda é reconhecido com a sua inclusão no Rock And Roll Hall Of Fame. A qualidade era a que já tinham habituado os seus fãs.

Walter Becker e Donald Fagen com os seus Grammys / Sam Mircovich (Reuters)

Em 2003 gravam o seu último trabalho de estúdio, “Everything Must Go”, que, ao contrário de maior parte dos trabalhos realizados até aí, contava com muito poucos músicos de apoio, tendo Fagen e Becker assegurado a maior parte da instrumentação utilizada. Até 2017, data do falecimento de Becker, com 67 anos, a banda apresentou-se regularmente ao vivo e foi participando em vários festivais e em concertos de outros músicos, fazendo perdurar o seu legado.

Em suma, os Steely Dan foram uma banda que se distinguiu pela diferença, não só na sua sonoridade mas também na forma como trabalhavam. Utilizaram sempre um grande número de músicos em estúdio e de elevada qualidade. Deram grande primazia aos coros, uma constante em praticamente todos os trabalhos da banda e a secção de metais ocupava também um lugar distinto, não fosse este um grupo de inspiração jazzística! Já para não falar no incrível número de guitarristas e bateristas de elevadíssima qualidade que colaboraram com a banda ao longo da gravação dos seus álbuns.

Nota distinta nos trabalhos dos Steely Dan é o uso de ecos e reverberação que incutem um tom “quente e seco” aos seus temas.

Todo o trabalho desta banda é de audição obrigatória para os amantes de boa música.

Walter Becker (1950-2017) – Guitarrista, Baixista, Vocais, Compositor e Produtor.

Donald Fagen (1948-Atualidade) – Teclista, Vocais, Compositor, Perfeccionista.

Bons sons.

Jorge Gameiro

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