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Porque A Arte Somos Nós

Desde o clássico “White Zombie“(1932) que diversos cineastas dedicaram a sua arte à alegoria e crítica sociocultural através do zombie. Nos calcanhares de um longo e rico legado, Bertand Bonello vem dar a sua contribuição ao subgénero de terror com “Zombi Child”, muito mais na veia de Jacques Tourneur do que George A. Romero. Isto é, com uma abordagem pragmática, em vez da carnificina fictícia que sucessos como “Zombie: A Maldição dos Mortos-Vivos” (1978) e “28 Dias Depois” (2002) cimentaram na cultura popular.

A narrativa é contada por intermédio de duas histórias em países e períodos diferentes. A primeira remota ao Haiti, em 1962, onde Clairvius Narcisse (Mackenson Bijou) morre mas renasce como zombie e é forçado a trabalhar numa plantação de canas-de-açúcar. A seguinte tem lugar numa escola privada parisiense, nos dias atuais, cujas estudantes são todas familiares de condecorados da Legião de Honra. É lá que estuda a recém-chegada Melissa (Wislanda Louimat), uma imigrante haitiana que estabelece uma amizade com Fanny (Louise Labeque), uma adolescente rebelde perdida de amores por um rapaz, que a acolhe para a sua irmandade literária.

Antes de mais, ressalvo novamente que o rótulo “terror” em “Zombi Child” é atribuído com bastante fluidez, na medida em que o horrendo na história é aquilo que Clairvius sofreu. A intenção do realizador e argumentista francês é recuperar a origem do zombie, o ser que está entre a vida e a morte e é subjugado à vontade de outrem por meio de drogas (algo que foi bem documentado no filme “A Maldição dos Mortos-Vivos” (1988), de Wes Craven). Desta feita, metaforicamente, comenta sobre a opressão que a França e a Espanha causaram no Haiti, escravizando e controlando.

Os rituais, o vodu, as danças, a literatura e a música conectam o passado e o presente, num filme que por vezes consegue ser hipnotizante. A contribuir para este atributo está a direção de fotografia precisa de Yves Cape e a composição musical do próprio realizador, que lhe confere uma qualidade onírica e, de cena em cena, atormentadora. É, sem dúvida, uma obra peculiar e com bastante compaixão pelo país que foi outrora colonizado – Não deixa dúvidas ao terminar ao som da reconfortante You’ll Never Walk Alone.

No entanto, comete alguns tropeços narrativos que tornam a experiência tão fascinante quanto frustrante. O grande esquema da história é percetível e estimulante, mas a caracterização das personagens é redutora e alguns enredos mereciam um desfecho mais esclarecedor e menos complicado. Parecem faltar blocos de informação decisivos para que a obra fosse mais coesa.

São reparos que não impedem que “Zombi Child” seja um filme de arte bem conseguido sobre uma criatura que se foi progressivamente instalando no imaginário da cultura do terror. Desta feita inspirada em eventos reais sobre acontecimentos que traçam uma linha ténue entre o tangível e o fantástico.

Bernardo Freire

Rating: 2.5 out of 4.

Este filme foi visto no Teatro Aveirense, que para além de teatro, também eventos musicais e cinematográficos.

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt9056192/?ref_=nv_sr_srsg_0

Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/zombi_child

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