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Porque A Arte Somos Nós

Uma chamada, o nome do Papa, e o código postal? Vaticano. “The Two Popes” tem início com a notícia da morte de João Paulo II (Karol Józef Wojtyła), um dos líderes mais influentes do século XX, que obrigatoriamente teria um sucessor na cadeira de São Pedro. O que se segue é simplesmente história. A obra realizada por Fernando Meirelles, o brasileiro que nos deu “A Cidade de Deus” (2002), conta com uma narrativa escrita por Anthony McCarten, que surpreende pelo seu olhar humano, aliado ao contexto frio e negro da história de dois dos homens mais importantes dos últimos anos. É-nos dada carta branca para entrar na intimidade de duas figuras “escondidas” do mundo, pois por muito que este tenha mudado, haverá sempre um grande misticismo em redor de uma figura sagrada – mas ao mesmo tempo, “apenas” humana.

Sir Anthony Hopkins é Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger), nascido em Marktl am Inn, um município alemão do estado da Baveira, eleito Papa a 19 de abril de 2005. Podemos observar logo de início um contraste entre o recém-eleito líder da Igreja Católica, e um cardeal muito especial, o argentino Jorge Mario Bergoglio. Este último interpretado por Jonathan Pryce, é um provocador e um revolucionário que tenta mudar algumas das doutrinas conservadoras da Igreja, principalmente depois de certos escândalos financeiros e sexuais. Ambos os personagens pautam uma história “conversada”, pois grande parte dos momentos em que é retratado um contexto histórico-pessoal, surge através dos diálogos entre os dois pontífices. Estamos em 2005, e Ratzinger é o eleito pelo Conclave para assumir o trono, numa “batalha” renhida com o argentino Bergoglio. Ambos vinham de meios completamente diferentes. O germânico sempre foi uma pessoa muito reservada, um intelectual com formação musical, sempre ambicionou chegar a Papa. Já o argentino teve um passado mais conturbado. Mais ligado às pessoas, um homem que conhece melhor os pequenos prazeres da vida, sempre foi despojado de quaisquer luxos, reflexo também do passado político e social da argentina nas décadas de 1960 e 1970. Ainda para mais, perdeu amigos e uma mulher muito especial na sua vida. Talvez graças a estes contextos consigamos entender o porquê de certas crenças e atitudes por parte do actual Papa Francisco. O único elo existente entre estes dois homens era a fé.

Fé essa que nem sempre está presente quando mais necessitamos. Foi caso de Bergoglio e Ratzinger. O argentino comprou uma viagem para Roma, com o objectivo de deixar o cargo de cardeal. Contudo, para surpresa deste, recebeu uma carta do Vaticano, a convite do Papa Bento XVI, logo após a marcação. Este viajou para a casa de Verão do chefe da Igreja Católica, situada nas Vilas Pontifícias de Castelgandolfo, para que Bergoglio pudesse então explicar o porquê do seu afastamento. O que este não esperava, era a razão do porquê da sua chamada antecipada por parte de Ratzinger. É a partir daqui que começam as tais “conversas”. A estadia do então Cardeal Jorge Mario veio mostrar a opulência da Igreja aos olhos de quem pouco tinha tido, funcionando como uma ligação para a maior parte dos espectadores. Os espaços são muito bem trabalhados por parte da produção, pois estes são elementos importantes que funcionam como complemento aos temas discutidos pelos dois personagens principais, dando mais ênfase à mensagem. Com o passar do tempo, e com mais horas de convívio, o alemão e o argentino começam a ganhar alguma intimidade, graças a pequenas partilhas como a música, o vinho, ou as suas histórias.

Com o desenrolar da narrativa, existe um maior foco no que é o passado de Jorge Mario Bergoglio, uma vida mais baixos do que altos, este conta que perdeu a fé, voltou a encontrá-la, e que atravessava de novo uma crise de crença. Ratzinger é um ouvinte, ou espectador, mas a certa altura damos conta que este também começa a mudar. A experiência do seu “irmão”, aliada à fraqueza e às polémicas que a “Casa de Deus” enfrentava, fez com que o alemão tomasse a decisão de renunciar a cadeira de São Pedro – a última vez que algo do género aconteceu foi há cerca de 700 anos. O que este filme traz de novo é a forma como olhamos ao percurso de ambos ao longo destes últimos anos. É-nos revelada toda a vida do cardeal Bergoglio, que após o afastamento de Bento XVI, foi o escolhido para a sucessão no conclave de 2013, adoptando o nome de Francisco. Devemos olhar aos contrastes e aos debates de forma reflexiva, por vezes não olhando tanto para o que nos rodeia, mas sim para o que somos e fazemos. Tudo no universo está em constante mudança, uma máxima que não é diferente para um Papa, pois antes de ser o representante de Deus, é um Homem.

Muito podemos debater sobre este filme, mas acho importante destacar a união das diferenças em prol de um bem maior. O argumento nunca perde força ao longo da obra, estando constantemente a construir pontes para os problemas contemporâneos mundiais. Uma das maiores revelações acontece na Sala das Lágrimas, dentro da Capela Sistina, quando Ratzinger admite ver no argentino o futuro Papa. Ficamos com a impressão que é Bergoglio que muda o germânico, graças à sua experiência e retórica. Assistimos, inclusive, ao perdão e absolvição de todos os pecados de Bento XVI, concedido pelo seu “novo amigo”.

A fotografia do filme não deixa a desejar, sendo que as câmaras em constante movimento dão uma dinâmica extra a um filme onde os seus personagens estão muitas vezes sentados. A certa altura, questiono-me se certos momentos não beneficiavam mais de um plano 100% estático, de modo a criar uma maior tensão no espectador, ou dar mais força ao diálogo. Contudo, é impossível não realçar a desmistificação destas duas figuras. Desde comer pizza a ver futebol, o sangue latino de Bergoglio mostra que todos podemos contar anedotas, mesmo quando o outro lado não entende, e que o mundo por vezes não tem de ser levado tão a sério. Todos erramos e pecamos, mas são as nossas atitudes perante essas dificuldades que moldam quem realmente somos. A obra apela também ao sentido de comunidade, num mundo onde tudo é de fácil acesso, o já então Papa Francisco insiste em falar com toda a gente como igual, pois todos fazem parte do processo. O filme serve também para marcar a imagem da Igreja Católica no mundo contemporâneo, usando os seus principais protagonistas num canal acessível a todas as gerações, com destaque aos mais novos, ou seja, os mais “desligados” da religião.

“The Two Popes” esteve indicado em quatro categorias dos Globos de Ouro, e está nomeado para cinco categorias dos prémios BAFTA, como por exemplo Melhor Ator Principal (Jonahtan Pryce) e Melhor Ator Secundário (Anthony Hopkins). No que toca aos Óscares 2020, esta parece ser a segunda melhor aposta da Netflix, pois “O Irlandês” (2019), de Martin Scorsese, parece ter melhores argumentos na batalha pelos prémios de maior relevo.

Os melhores líderes são os que não o querem ser

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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