Na tentativa de chamar à atenção para a barbárie, os presidiários dos vários complexos do Alabama, apoiados na escola pacifista de Martin Luther King Jr., anunciam uma greve pacifista. Procuram atingir o sistema onde mais dói: no bolso.
No rescaldo da guerra civil americana, em 1865, a 13.ª emenda da Constituição dos Estados Unidos aboliu formalmente a escravatura. Não mais as pessoas de tez negra poderiam ser forçadas a trabalhar contra a sua vontade. Restituiu-se a condição humana. Ao mesmo tempo, fora desmantelada uma estrutura de poder: uma economia inteira assente na exploração sistemática de corpos privados de direitos. A abolição rompeu com um modelo que confundia trabalho com coerção e produtividade com desumanização.
É verdade que, desde então, houve progresso. Talvez o exemplo de maior notoriedade se tenha verificado em 2008, quando Barack Obama chegou à Casa Branca. Um chefe de Estado negro? Demorou bem mais do que um século, mas aconteceu. O discurso era de esperança, contudo, foi rara a pessoa que confundiu esta eleição com o fim dos problemas raciais nos Estados Unidos. Afinal, esta aversão tem barbas e uma inquietante capacidade de se manifestar.
Vejamos o problema dos complexos prisionais no país, que a cineasta Ava DuVernay tão bem expôs no documentário “A 13.ª Emenda” (2016, disponível na Netflix), nomeado para o Óscar de Melhor Documentário em 2017. O trabalho, que podia funcionar enquanto ferramenta de reintegração social, é antes imposto, mal remunerado ou gratuito e a recusa acarreta castigos, isolamento ou perda de direitos. Por outras palavras, o Estado e grandes grupos empresariais lucram com os bens e serviços produzidos num sistema que transforma a prisão em instrumento de controlo social e exploração económica.

Gera-se, assim, uma lógica perversa, sob o manto da segurança pública. Uma máquina de repressão da população negra, alimentada pela guerra às drogas, pelo intenso policiamento em comunidades negras e por leis severas que resultam em penas excessivas, mesmo em casos de delitos não violentos.
Face às evidências, a sugestão é a de que, a bem dizer, a escravatura nunca terminou, apenas se reinventou. E estamos todos demasiado confortáveis perante a situação para o meu gosto. Ou assim aparenta, tendo em conta o que se vê no mais recente documentário sobre o tema iluminado pelos carecas dourados: “The Alabama Solution” (2025, disponível na HBO Max), de Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman. O tom de zanga e revolta que encontramos em “A 13.ª Emenda” é aqui substituído por uma frieza perturbadora. Em causa está a corrupção institucional e a violência sem freio dos guardas prisionais nos complexos do Alabama. Questões denunciadas pelos próprios presidiários através de mensagens e vídeos enviados por telemóveis contrabandeados.
De repente, a indignação que senti ao assistir ao filme de Ava DuVernay, ou, com efeitos de outra nuance, “Se Esta Rua Falasse” (2018), vem de novo ao de cima. Regressa com novos dados: não só a estrutura de opressão se mantém, como a brutalidade e descaramento parecem ter atingido outros patamares. Na tentativa de chamar à atenção para a barbárie, os presidiários dos vários complexos do Alabama, apoiados na tradição pacifista de Martin Luther King Jr., anunciam uma greve pacifista. Procuram atingir o sistema onde mais dói: no bolso. Os danos são tangíveis, os jornais e telejornais dedicam caracteres ao tema, mas a prazo os cárceres, isolados e privados de sustento, retomam os trabalhos rotineiros em condições miseráveis.

Não me surpreende que o Estado do Alabama encontre a edificação de novos complexos como solução para a sobrelotação de presidiários – relativizando no processo as demais queixas. O que me inquieta é a apatia generalizada com que a população do Alabama encara esta realidade. Sem benesse para os seus compatriotas, pois este está longe de ser um problema exclusivo do berço dos antigos Estados Confederados da América. Voltando a King Jr., “quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele“.
A ideia dos estabelecimentos prisionais enquanto instituições de reabilitação e reinserção social sempre teve um travo romântico, próximo da utopia. A realidade, como estes filmes insistem em demonstrar, é bem menos nobre: prisões pensadas para conter, explorar e silenciar, não para recuperar. Quando o encarceramento se transforma num modelo económico e a punição numa rotina administrativa, a justiça deixa de ser um horizonte e passa a ser um pretexto.
Talvez seja por isso que estes filmes acabam, ciclicamente, por gravitar em torno dos Óscares. Não porque a estatueta vá resolver seja o que for, mas porque, durante breves semanas, obriga a olhar. “A 13.ª Emenda” e “The Alabama Solution” não pedem aplauso, pedem atenção. E isso, como sabemos, é um recurso cada vez mais escasso. Quando as luzes da cerimónia se apagam e o entretenimento retoma o seu curso habitual, o sistema permanece intacto, funcional, lucrativo. A verdadeira questão é saber se, desta vez, o brilho dourado servirá apenas para consagrar mais um “bom filme” – que o é – ou se irá contribuir para fissurar, ainda que por instantes, a confortável indiferença que permite que tudo continue na mesma.
