No Brasil, o género crónica é muito apreciado. Comumente publicada em jornais, são histórias (algumas historietas) onde o autor relata uma ação por vezes banal do seu quotidiano. Com inspirações das mais variadas formas: um esbarrão num desconhecido no metro, um diálogo atravessado e mal-humorado numa sala de espera do médico, numa fila de cinema, em encontros dos mais inusitados e, em muitos momentos, o cronista acaba por olhar mais para o seu próprio umbigo, desfiando os seus incómodos e alegrias.
Geralmente datada, brincam alguns que a crónica publicada no dia de hoje servirá apenas para embrulhar o peixe na feira amanhã, o certo é que cada autor acaba sonhando em ver o seu repertório reunido, editado e publicado em forma de livro. Nada mais justo, afinal, dificilmente se embrulharão peixes com um livro.
Descartáveis e baratas? Comercialmente pode até ser. Pois foi com surpresa que vi na banca de descontos da livraria o “Tropeços nos Trópicos”, com o subtítulo “Crónicas de um gringo brasileiro” (Editora Record, 2011, 271 páginas) vendido a R$ 5,00 (cotação de hoje, menos de 1 euro). Obviamente que entendo que qualidade e preço não são indicativos de alguma coisa, razão pelo qual adquiri o livro de Michael Kepp (atualmente com 75 anos) após ler as orelhas e contracapa. Entendi a efemeridade do género.
Se o volume foi publicado em 2011, atualmente muitos destes textos podem estar datados (alguns estão), mas tirando este senão, as crónicas originariamente publicadas no jornal Folha de S. Paulo (um dos mais importantes jornais do Brasil) são interessantes. O autor desnuda a sua alma através da perceção e observação e contrapõe as culturas e modo de vida de estadunidenses e brasileiros. Em respeito à plataforma portuguesa a qual esta resenha se destina, fazia estas comparações triangulares a todo o momento.
É sabido e notório o pragmatismo estadunidense e a equação de que “tempo é dinheiro”. Um ritmo de vida mais frenético e para aquele que estranha tudo isso, o jeito é ser feliz noutras paragens. Foi assim que Kepp veio dar a esta Terra de Cabral. O famoso país do “jeitinho” (com o qual aliás não concordo), com um jeito de ser mais extrovertido e muitos alçados à classe média empreendedora (se bem que este é um fenómeno mais atual) tentam copiar o estilo de vida norte-americano de ser.

Lado outro, e isso obviamente não está no livro, contraponho a identidade europeia um pouco menos afeita a este ideal do sucesso a qualquer preço, com um modo de vida mais equilibrado. Obviamente que estou a generalizar, uma vez que as várias nacionalidades do Velho Mundo indicam muitas coisas.
O certo é que ler as observações de um cronista estrangeiro sobre o Brasil é interessante. Lendo, cheguei à conclusão de que eu mesmo “me sinto um estrangeiro, passageiro de algum comboio“. Canso-me de responder a estereótipos de amigos e leitores estrangeiros. Tipo “não gosto de Carnaval“; “na minha província não tem praia“; “o presidente Lula não me cheira bem“; “a Cidade Maravilhosa” não é tão maravilhosa assim, e por aí vai.
Lembro-me de uma vez em que conversei com um taxista que me levou ao aeroporto da Portela (Lisboa) e eu discorria acerca das belezas e do encanto de Portugal. Filosoficamente, ele abordou uma historieta do Diabo que havia convidado São Pedro para passar uma temporada no Inferno. Tratou o hóspede com muita distinção, a ponto de convidá-lo a morar eternamente lá. Pedro reuniu-se com Deus, que o esclareceu acerca da mudança ser definitiva, para que ele refletisse bem. Pedro assim o fez. Refletiu e decidiu mudar-se de mala e cuia para o Inferno. Passaporte destruído, viveu horrores no submundo.
Tratado como mais um, ardendo no calor das labaredas, nem reunir-se com o anfitrião podia. Depois de muitas solicitações e burocracias, conseguiu enfim a sua audiência. Reclamou ao Diabo das condições insalubres e infernais, ao que o Tinhoso respondeu: “Pedro, aprenda uma coisa: para visitar é uma condição, para morar definitivamente é outra.” Filósofo que sou, fiquei a refletir: “O que será que o taxista quis dizer com isso?” Claro que sabia.
Michael Kepp tem o mérito de ser um bom escritor. Resumir uma historieta e proporcionar reflexão é mérito para poucos. Conhecendo um pouco a sua vida errante, de barman a colhedor de maças numa herdade, à boleia querendo desbravar o mundo pelas estradas dos Estados Unidos, veio “amarrar a sua égua” aqui no Brasil e parece ter gostado do que viu. Com bom humor, leveza, mesmo revelando algumas rabugices para lá de justificadas, no fim da leitura ficamos com aquela sensação de que a alteridade é fundamental para compreendermos povos, culturas e comportamentos tão distintos.
Na contracapa do livro, famosos cronistas brasileiros balizam e autenticam a relevância dos textos: Luis Fernando Verissimo, Ruy Castro, Roberto DaMatta, Chico Caruso e Moacyr Scliar.
Nesta análise, também balizo a excelência destes textos que, num primeiro momento, serviram apenas para embrulhar os peixes.
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