Depois de estrear a série antológica “The Dark Pictures” em 2019 com “Man of Medan“, foi logo no ano seguinte que a desenvolvedora Supermassive Games (conhecida no género das narrativas interativas por “Until Dawn“) dava sequência ao franchise, desta feita com “Little Hope”.
Sem prometer nem entregar grandes inovações de jogabilidade, o foco dos jogos da antologia é colocado em torno da história, das personagens e da capacidade para gerar narrativas altamente ramificadas. Talvez por não haver tanta pressão para introduzir novas mecânicas ou caprichar no capítulo gráfico, a Supermassive Games tem conseguido lançar uma nova história por ano, ajudando também o facto de a duração destas narrativas se situar entre um filme e a temporada de uma série (tipicamente entre cinco a sete horas de duração).
Novamente contando com a presença de um narrador omnipresente e omnisciente (o autointitulado Curador), é esta estranha personagem que explica ao jogador o seu papel: tomar decisões. É prometido pelo Curador que, para o bem ou para o mal, todas as escolhas do jogador irão ditar quem vive e quem morre, servindo este apenas para ocasionalmente o guiar na história.

A narrativa começa quando um grupo de quatro estudantes e o seu professor se encontram num autocarro, durante uma visita de estudo. A meio do caminho o condutor é forçado a fazer um desvio, obrigando-o a passar pela cidade-fantasma de Little Hope e causando um grave acidente, minutos depois de entrarem na cidade. Antes de regressar aos acontecimentos, o jogo introduz um flashback passado várias décadas antes. Numa vila de Little Hope ainda habitada, o retrocesso na história revela uma noite em que um incêndio na casa da família Clark matou todos os membros da mesma, à exceção do jovem Anthony.
Voltando ao momento presente, e sem ser explicada a conexão entre as duas linhas temporais, os tripulantes da viagem sobrevivem (tanto os alunos como o professor), mas apercebem-se que o condutor se encontra desaparecido. Vagueando pela cidade inabitada, o grupo começa a aperceber-se de que não são os únicos na cidade, depois de primeiro encontrarem um ex-habitante e de posteriormente se aperceberem de outro tipo de entidades sobrenaturais.
Como habitual e esperado neste tipo de jogos, a narrativa vai sendo pontuada não só por momentos cinemáticos, mas também por situações em que o jogador tem influência na história. Estas poderão ser escolhas de diálogos (entre três opções), momentos de exploração que servem para descobrir segredos ou até como elemento narrativo (exemplo: se a personagem descobre algum item que poderá ser usado no futuro), decidir dilemas mais complexos (com duas opções e sem uma escolha óbvia) ou os famosos quick time events em momentos de fuga ou combate.
Tanto os alunos como o professor são controlados alternadamente ao longo da história e as suas decisões individuais poderão afetar as relações com os restantes e, consequentemente, as suas possibilidades de sobreviver à fatídica noite ou mesmo as dos seus companheiros.

Sem muito mais a dizer no âmbito da jogabilidade, “Little Hope” destaca-se por ser narrativamente mais consistente e interessante do que o antecessor “Man of Medan” (cujo twist é facilmente identificado logo na primeira cena do jogo). A vertente sobrenatural é bem conseguida, mesmo afastada do tipo de terror que a Supermassive Games costuma providenciar, tipicamente baseada em monstros.
As consequências das decisões e os múltiplos possíveis finais dão confiança ao jogador de que a história é personalizada e apenas sua, mesmo que isso depois só seja possível de confirmar com playthroughs adicionais. Contudo, verdade seja dita, no género das narrativas interativas, a arte de conseguir que os jogadores sintam a possibilidade de escolha acaba por ser um dos objetivos principais, mesmo que com alguns artifícios pelo meio.

Embora hoje em dia seja assumido que jogos triple A tenham que ter dezenas de horas de conteúdo para justificar os cada vez mais elevados preços praticados, os jogos da antologia “The Dark Pictures” conseguem colmatar a duração mais reduzida da sua campanha com algumas features interessantes que fomentam novas incursões pela história (aliado, obviamente, a um preço mais baixo do que os grandes blockbusters).
Além dos múltiplos finais, que convidam o jogador a experimentar novamente o jogo alterando as suas escolhas mais críticas, tanto o modo “Movie Night” como o “Curator’s Cut” foram mantidos desde “Man of Medan”. O modo “Movie Night” incentiva os jogadores a jogarem localmente com um grupo de amigos onde vão passando o comando entre si, controlando cada um uma personagem da história. Já o modo “Curator’s Cut”, apenas disponível depois de terminar pela primeira vez a campanha, permite jogar algumas cenas sob o ponto de vista de outras personagens, dando um contexto adicional sobre algumas cenas e novas decisões a serem tomadas.
Quer seja sozinho, online ou com um grupo de amigos, “Little Hope” é uma sugestão sólida para uma noite de Halloween bem passada, onde a responsabilidade da conclusão da história está colocada no espectador.
Happy Halloween!
Disponível em: Nintendo Switch, PS4, PS5, Windows, Xbox One, Xbox Series X|S
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