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É logo na cena inaugural que temos o primeiro vislumbre de Joaquin Phoenix na pele do francês Napoleão Bonaparte, no filme homónimo de Ridley Scott. Estamos em 1793 e a antiga rainha de França, Marie Antoinette, de orgulho intacto, é arrastada até à guilhotina, onde perde a cabeça. Misturado na multidão, observador, eis Napoleão, ainda um oficial de artilharia do exército francês. Alheio ao que o destino o reservava, mas convicto de que esta seria das poucas vezes em que passaria despercebido entre o seu povo.

O momento que Scott escolhe para encetar o filme é apropriado, não fosse este golpe mortal a confirmação de que as convulsões políticas em França seriam consequentes: o regime político havia sido substituído, a monarquia estava decapitada. No período seguinte ao triunfo dos valores iluministas, Napoleão assegurou o seu prestígio militar e político, bem como o coração de Josephine (Vanessa Kirby), até a ambição levar a melhor de si – assim nos conta o argumento semi-histórico de David Scarpa.

Joaquin Phoenix (Napoleão Bonaparte)

Nos meandros da ascensão e queda, “Napoleão” trata, portanto, de alguns dos episódios estadistas e bélicos mais marcantes da sua vida. Sendo, contudo, aquilo que fica por contar, o que porventura teria configurado um drama mais imponente e digno de nota. Pois com o desenrolar das cenas, torna-se evidente que esta versão deslavada da história de um dos maiores líderes mundiais não só tem pouco que ver com os nossos dias, como é incapaz de entender e sintetizar a nobreza de pensamento do seu protagonista.

Da mesma forma, o arranjo de Joaquin Phoenix enquanto Napoleão, com todas as suas peculiaridades, contribui para a falta de persuasão da narrativa. É pouco verosímil que o povo francês – à época um dos mais liberais e civilizados – se mova a comando de uma personagem com irrupções de infantilidade e tamanha falta de carisma. Por muito que consigam manter um certo patamar de entretenimento, Phoenix, Scott e Scarpa raramente dão os saltos decisivos. Onde está o animal político? Em que cenas somos tomados pelo exercício da sua magistratura?

O caso muda de figura quando entramos nos vários terrenos de batalha. Não só assistimos a um Napoleão dotado da arte da guerra, como as sequências estão rodadas e ritmadas com apropriada brutalidade. Mesmo desprovido de fatores emotivos, como vemos, por exemplo, em “Braveheart – O Desafio do Guerreiro” (1995), é aqui que Ridley Scott (85 anos) procura justificar a envergadura da produção. A encenação é sombria, o campo de ação é extenso e as texturas – o frio, o sangue, a chuva, a lama – sobressaem. Já ninguém em Hollywood está interessado em compor este género de ferocidade, exceto, claro, Scott.

Vanessa Kirby (Josephine Bonaparte)

Mantendo-me nos louros, viro as atenções para a âncora emocional de “Napoleão”: Vanessa Kirby, no papel de Josephine. Com grande sentido de presença, a atriz britânica encarna uma mulher emancipada, imperfeita e corajosa, que sucumbiu aos trâmites do poder. Curiosamente, este retrato rima com as injustiças do drama medieval “O Último Duelo” (2021), também realizado por Ridley Scott. Afinal, seja em nome da honra pessoal ou da nação, bem sabemos quem tem sido comumente penalizado ao longo da História.

Conforme relatado, esta não é uma aventura desprovida de méritos. Porém, por ser endémica, vale a pena regressar a uma das suas fragilidades fundamentais. Pouco importa se assistimos à coroação embaraçosa de Napoleão (1804), se a narrativa demonstra apatia quanto às complexidades políticas que o levaram a ser Imperador. Algo semelhante acontece anos mais tarde, depois de fracassar em várias campanhas militares e de ser exilado. Por milagre, os soldados franceses voltam a mostrar-lhe respeito e boa disposição. Certo ou errado, facto ou ficção, daqui se depreende que não basta relatar a História, é preciso dramatizá-la de forma convincente.

Bernardo Freire

Rating: 2 out of 4.

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