Com o passar do tempo, percebemos que estamos cada vez mais dependentes da tecnologia, acabando por hipotecar a forma como abraçamos a essência da nossa vida, nomeadamente, aceitarmos conviver com os outros, aprender com eles e exponenciar todo o potencial humano que temos dentro de nós; através do quê? Da conexão, empatia e de um sentido coletivo. A verdade é que, se por um lado os avanços tecnológicos permitem facilitar a nossa vida e contribuir para que evoluamos como sociedade, por outro, também pode implicar um certo desligamento do ser humano para com o outro, para com o mundo, para com a realidade.
Will Caster (Johnny Depp), um neurocientista especialista em Inteligências Artificiais, é um dos protagonistas do filme “Transcendence” (2014), escrito por Jack Paglen e realizado por Wally Pfister, naquela que foi a sua primeira longa-metragem. O filme está disponível no catálogo da HBO Max.
Will é casado com Evelyn Caster (Rebecca Hall), defensora de causas ambientais, além de ser, também ela, neurocientista. Depois de sofrer um atentado organizado por um grupo radical, Will torna-se cobaia de um dos seus próprios projectos. Para conseguir “sobreviver” ao ataque de que foi alvo, toma a decisão de transferir a sua mente para um supercomputador, de forma a poder continuar, em princípio, a perseguir o seu sonho. No entanto, após estar conectada à internet, a sua (nova) consciência começa, na verdade, a traçar planos inusitados para o desenvolvimento e futuro da humanidade.
Efetivamente, o filme presenteia o espectador com um notável espetáculo visual, da mesma forma que as metáforas cinematográficas construídas trabalham amplamente a favor da história, desde a relação que estabelece entre a planta de uma cidade e uma placa de computador, às reflexões constantes e intelectuais sobre o sentido da vida e sobre a essência do ser/existir.

Além disso, a paleta de cores predominantes no filme consegue reforçar a melancolia das personagens, quase sempre optando por tons frios e algo neutros, sem nunca esquecer o trabalho exímio da direção de arte. Com efeito, Will, sendo defensor da evolução da inteligência artificial, ao se deparar, de certo modo, frente-a-frente com a sua finitude, escolhe tentar conservar as sua mente e as suas memórias na perspetiva de se manter vivo, espiritual e intelectualmente falando. Esta questão serve para refletir sobre até que ponto é que o conceito de inteligência artificial não caminha para a ideia de humanidade moderna, realidade, essa, deveras assustadora e sombria.
Com esta sua intenção, Will, no fundo, pretende concretizar uma certa ideia de Deus, eterno, e assim transcender; transcender como forma de ir além dos limites do conhecimento/consciência humano/a, mas não só. Decerto, filosoficamente falando, “Transcendence” obriga-nos a refletir sobre a essência da nossa vida e sobre a forma como devemos/podemos questionar a natureza da nossa alma e consciência.
De facto, “as pessoas sempre temeram o que não compreendem”, frase tecida por Max Waters (Paul Bettany), amigo do casal e, também ele, um personagem bastante importante para o desfecho da história. Max que luta ferozmente contra a ideia da humanidade deixar cair tudo nas mãos da inteligência artificial, servindo, muitas vezes, como um elemento racional repleto de sensatez e assertividade. Desta forma, novamente segundo ele, “a emoção humana pode conter conflitos ilógicos” – conflitos esses que, muitas vezes, ultrapassam os limites da nossa compreensão.
E esta foi uma de muitas ideias desenvolvidas ao longo do filme: nomeadamente, a linha ténue que separa o que compreendemos do que queremos/ansiamos compreender e que, se há algo que a inteligência artificial não consegue igualar, é a magia da emoção humana, que dentro de si guarda uma tamanha pureza (ilógica), o que faz dela, porventura, o ativo mais distintivo que temos (a preservar).

Em relação às interpretações, Johnny Depp apresenta-se em grande estilo, apesar de, por força da narrativa, ter uma envolvência no ecrã menos convencional. Por outro lado, Rebecca Hall tem a grande prestação do filme, pois consegue imortalizar no seu papel uma intensidade tal que é capaz de transmitir cada sentimento de uma forma muito pura, completa e genuína. Em relação a Walter Pfister (parceiro habitual de Christopher Nolan enquanto diretor de fotografia), que faz a sua estreia como realizador neste “Transcendence”, a verdade é que conduz bastante bem a longa-metragem, na direção certa, com o tom adequado à essência narrativo-intelectual que pretende transmitir.
Poderá, certamente, dizer-se que “Transcendence” revela o seu destino demasiado cedo, acabando por se tornar um pouco previsível; contudo, a grande força deste filme está, na verdade, na forma audaz como consegue desenvolver o tema da autoconsciência (humana e artificial), um tema sempre digno de discussão, quer na literatura, quer no cinema.
Assim, toda a profundidade patente em “Transcendence”, através de uma ficção científica que mergulha em conceitos tecnológicos complexos e que reflete sobre o futuro da humanidade, consegue fazer um ensaio (filosófico) sobre as implicações sociais dessas mudanças de uma forma bastante coesa. Com efeito, conduz-nos à ideia de identidade, à ideia de ego como conjunto das nossas memórias e ideias, servindo de trampolim para uma experiência que, não sendo amplamente memorável, faz-nos preencher, com conforto, o vazio dos nossos questionamentos mais profundos.
Um filme sobre a necessidade de mudança, mas sobretudo sobre a necessidade maior de preservar o que temos de verdadeiramente nosso: a força e beleza da nossa inatingível e inigualável humanidade.
Por um cinema feliz.
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