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Outro filme sugerido pelo editor do Barrete, Diogo Vieira, e que bom foi ser apresentado a este enredo histórico que se centra na vida de dois personagens dissidentes; um politicamente, o outro com a própria existência. “Guerra Fria“, título em português e do original “Zimna wojna“, realizado pelo polaco Pawel Pawlikowski, tem no elenco Joanna Kulig, Tomasz Kot ou Borys Szyc, e é um drama romântico com 1h28min. Este foi gravado na Polónia, França e Reino Unido. A história é tão bem conduzida que nos deixa com aquela sensação ao final de ter passado rápido demais. Mas já? Vamos “destrinchar” um pouco?

Estamos no interior da Polónia em 1949 e um grupo de funcionários estatais do setor cultural viaja à procura de talentos musicais. O trabalho é de lapidação, pois gravam sons e depois da peneira encaminham estes talentos para uma escola de prestígio. Lá são rececionados pelo mesmo professor que viaja em busca destes talentos. Wiktor (interpretado por Tomasz Kot), é um consagrado pianista e avaliador nesta escola.

Dentre as alunas que são caloiras no período de testes, o professor apaixona-se por Zula (interpretada por Joanna Kulig), uma rapariga de muita personalidade que já havia passado uma temporada na prisão. Questionada por Wiktor acerca dos motivos que a levaram a cumprir este castigo, esta responde tranquilamente que o seu pai a havia confundido com a sua mãe e como tal mostrou-lhe a diferença ferindo-o com uma faca. Feministas de todo o mundo, aprendam! Fria e calculista, ela irá virar a cabeça do professor, entregando-se, porém, a um tórrido romance.

Joanna Kulig (Zula)

A película é extraordinária no que toca às apresentações musicais tradicionais da Polónia. Por vários momentos, desconectamo-nos da ideia de que estamos a assistir a um filme, mas sim a uma apresentação de dança. Vozes cristalinas e performances incríveis, o certo é que lotam teatros e claro, saem em tournée pela Europa Socialista, com apresentações em Berlim, Jugoslávia (não precisam o lugar exato) e na capital Varsóvia, tudo almejando um dia apresentarem-se em Moscovo.

Aqui a caracterização política do pós-Segunda Guerra, e certamente daí o nome do filme, sendo que o incómodo que os verdadeiros artistas sentem é terem as suas obras engajadas a propagandas políticas. Pois ver uma apresentação belíssima em canto e harmonia, acrescida de dança, tendo de fundo um gigantesco cartaz de Josef Estaline é “dose pra dinossauro”. Assim era a realidade artística e cultural do bloco socialista. É quando o professor, numa viagem a Berlim, decide deixar o país de forma clandestina, agendando com o seu grande amor que não aparece. Este exila-se deixando para trás a sua pátria afetiva.

Num recorte, ele está em Paris a tocar num clube de jazz. Com músicos independentes e que não precisavam de prestar tributo a ditadores, o certo é que a sua condição ainda é precária, financeiramente falando. Vive com uma mulher mais por favor a ambos e vai levando os seus dias, realizando alguns extras como uma banda sonora para um filme de suspense. Tudo estava mais ou menos tranquilo até o momento em que se encontra com Zula, agora casada, tão friamente como a sua própria existência, e o certo é que o fogo da paixão reacende, sendo o amor devoto do pianista uma constante.

Tomasz Kot (Wiktor)

Ela acaba por passar uma temporada em Paris e chega a gravar um disco que faz enorme sucesso, dormindo também com um produtor e agindo, perdoem-me o termo, como uma piranha. A única coisa que não é sucesso é a sua existência, sempre frígida e entregue a vontades próprias que não respeitam ninguém, nem o seu fantoche marido, nem o seu filho e muito menos o seu público.

Quando tem que voltar à Polónia, deixa o pianista atordoado e este admite até uma prisão de 15 anos para retornar à pátria, pena que será atenuada por intervenção da sua amada. E claro, dos seus contatos. O certo é que Zula, de tão forte personalidade, não se comportava na cidade grande e não se dava com os outros. Nada mais natural que propusesse com o agora liberto Wiktor um casamento na sua província, mais uma terra abandonada, com um desfecho esplêndido – ao melhor estilo de Romeu e Julieta.

Agradeço ao Diogo a indicação e mais que recomendo esta longa-metragem, sugerindo que prestem bastante atenção à contextualização histórica, pois dessa forma poderão obter uma excelente aula. Um filme que voltarei a ver vezes e vezes, em busca de apresentações culturais polonesas tão ricas e brilhantes. Enfim, uma verdadeira obra de arte, assim como o figurino, fotografia e cenário do filme em si.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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