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Mais de 30 anos depois do acidente nuclear em Chernobyl, a cidade fantasma é o local escolhido para dar início a um dos documentários mais importantes do século XXI. “David Attenborough: A Life on Our Planet” assume-se tanto como um testemunho final de um homem com vida feita pelo planeta fora, como uma narrativa preventiva sobre o desastroso futuro do planeta se não agirmos com rapidez e eficiência. Compacto, consciencioso e informativo, o destaque acaba por estar não no seu caráter profético, mas sim nas soluções que o Senhor Attenborough apresenta para reverter as consequências catastróficas para as quais nos dirigimos.

Muito focado na lógica da causalidade e com estatísticas perturbantes a apoiar os visuais e os seus comentários, o documentário realizado por Alastair FothergillJonathan Hughes e Keith Scholey apresenta uma estrutura simples e cronológica. À medida que começa por apresentar filmagens antigas do explorador pelos ecossistemas fora, também elabora sobre o impacto da pegada humana na natureza ao longo das últimas décadas.

Inevitavelmente, quando chega a hora de prever como serão as décadas futuras, o cenário não se adivinha risonho e o filme não se esquiva de mostrar o que a ciência aponta. Até que, por fim, um leque de ações plausíveis, exequíveis e estranhamente intuitivas são abordadas, recusando assim uma visão fatalista para o destino do planeta azul e para a humanidade.

“A Life On Our Planet”

Pois tal como o exemplo de Chernobyl explica e bem: com ou sem humanos, o mundo irá lentamente recuperar dos estragos que provocámos. Na cidade ucraniana, a vida selvagem reivindicou o território sem pedir qualquer tipo de permissão – a vegetação é vasta e avistam-se espécies de animais que vão das raposas aos lobos, dos javalis aos veados. Com isto, o documentário parte de um caso particular para esclarecer que se nós, espécie humana, não agirmos de modo a nos auto-preservar, a fauna e a flora vão certamente ser afetadas, mas renovar-se-ão.

Desde a formação da Terra que o planeta já passou por algumas extinções em massa e, apesar disso, a vida natural arranjou sempre forma de se reconstituir. Assim sendo, retardar a extinção da raça humana é uma responsabilidade que só nos cabe a nós. Não às gerações vindouras. Já esgotámos o luxo desse discurso atempado. É tempo de agir. É agora ou nunca!

“A Life On Our Planet”

O documentário explica, por vezes em tom de palestra, que atingindo certas métricas torna-se dificílimo mudar o rumo das circunstâncias e não falta muito para que estas sejam irreversíveis. São analisados valores como a concentração de CO2 na atmosfera, números populacionais e percentagem de vida animal selvagem para montar um retrato que exprime o ponto crítico que atingimos. No entanto, no outro lado da moeda são citados exemplos bem-sucedidos na Holanda e na Costa Rica, que demonstram mudanças positivas a decorrer. Parte da solução está, pasme-se, na reconstituição da biodiversidade e dos ecossistemas que durante séculos permitiu que a espécie humana prosperasse. Tal como o óleo desenferruja uma máquina oxidada.

Depois de explorar as maravilhas do mundo natural com diversos documentários, tendo o mais recente “Our Planet: Behind the Scenes” (2019) um ângulo de preocupação por espécies em vias de extinção, o Senhor Attenborough deixa um testamento final tão preocupado quanto esperançoso. Os governos devem encarar as problemáticas ambientais com máxima urgência e ativar planos de ação de forma a estabilizar os valores que tanto preocupam a comunidade científica. Quanto a nós, comuns mortais, cabe-nos agir individualmente de maneira lúcida e nunca perder a perspetiva de que somos nós que elegemos quem nos governa. Um voto por políticas ambientais racionais já não é um voto partidário, mas sim humanitário.

O documentário está disponível na plataforma de streaming da Netflix.

Bernardo Freire

Rating: 3.5 out of 4.

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