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Porque A Arte Somos Nós

Por entre as imensas ramificações da árvore do metal, é difícil nos últimos anos apontar um subgénero mais amado e odiado do que o metalcore. De um lado estão os críticos de uma repetição sonora, uniforme, que cansa em vez de entusiasmar. Por outro, a semelhança de tons e grooves permite uma entrada acessível de banda para banda, popularizando grupos como os Killswitch Engage, August Burns Red e Bring Me the Horizon. Independentemente do lado em que se encontre o leitor, sinto que algo é indiscutível: o metalcore precisa de uma urgente lufada de ar fresco.

Eis que entram em cena os australianos Thornhill com o seu primeiro álbum, “The Dark Pool“. Será a resposta que o subgénero precisa? Bem, não reinventa a roda, mas aquilo que faz, fá-lo de forma exímia. Dinâmico, fluído e às vezes até espacial, a banda consegue na sua estreia oferecer um som fresco e viciante desde a primeira até à décima-primeira faixa, sendo a parte lírica de caráter pessoal como universal.

“The Dark Pool” abre com o título Views From The Sun, onde Jacob Charlton, o vocalista, não faz caso de esconder os seus talentos. Quer em esforços guturais personalizados como no refrão limpo e melódico, a faixa demarca-se logo por ser extremamente convidativa. É também possível ter uma ideia imediata daquilo que podemos esperar do trabalho de guitarra de Ethan McCann e Matt Van Duppen ao longo do álbum: poucos solos mas muita harmonia. Uma tendência que continua quando dispara a potente e elegante Nurture. Um jogo de equilíbrio vocal brilhante acompanhado de uma estrutura de escrita musical exemplar.

Este último aspeto pode ser facilmente destacado na faixa seguinte, The Haze, onde a bateria de Ben Maida transita para primeiro plano com batidas irregulares. Num estilo mais progressista, repousado e sedoso, nada fazia prever que a música servisse de crescendo para um breakdown mais delicioso do que mel. Num piscar de olhos, esta viagem desenvolve-se para a quarta faixa, Red Summer, sem quaisquer refrões, a música introduz sons ambientais que voltarão em faixas posteriores – um toque inovador que os distingue da maioria das bandas de metalcore.

A agressividade musical e temática retoma na música In My Skin, que aborda o tema da toxicidade da imagem corporal com a qual o líder da banda lidou a certo ponto. Na letra podemos ouvir: “Give me your skin; I’m sick of being stuck inside of mine“. Apropriadamente, enquanto Jacob canta num tom limpo, ouvimos uma voz medonha a ecoar palavra a palavra – a voz da sociedade que pressiona e influencia o pensamento.

A banda australiana Thornhill

A marcar a passagem da primeira para a segunda metade do álbum está um breve interlúdio instrumental com um pequeno verso que encaixa na perfeição na faixa seguinte, Lily & The Moon. Começa com um pé intenso e ritmado na bateria e guitarras coesas e fala sobre a morte da cadela de Jacob. É bastante emotiva, sincera e desfaz-me em peças constantemente – “If there’s another world, I will meet you there”.

É ouvir para crer, porque as lamechices terminam mal Coven entra em cena. Repleta de ira, é facilmente a faixa mais pesada de todo o álbum. Comenta sobre a ansiedade e os guturais refletem a agonia e paranoia que por vezes este estado de espírito proporciona. Musicalmente, a inclusão do piano numa secção particular marca um contraste interessante. São pormenores como este que tornam cada música em “The Dark Pool” verdadeiramente memorável e aliciante.

Ainda não referi o quão cativantes são os refrões pois não? Pois bem, Human torna impossível não fazer essa referência. Não só pela melodia da canção, mas também pelo trabalho de voz incrível, quase relaxante. A entrega das letras é de facto de outro mundo neste álbum, mas, perto do fim, o instrumental Netherplace toma um rumo melancólico, navegador. Com o desígnio único de munir o álbum de ímpeto para a explosão de energia final.

Where We Go When We Die volta a oferecer em proporção um mix de leveza e violência que não falha em levar-me às lágrimas. A letra evoca uma preocupação ambiental e há mérito nas palavras cantadas, porém, é talvez na execução e na espontaneidade das composições musicais que esteja a chave de ouro dos australianos. É um grupo emocionante, aditivo e que cumpre uma obra-prima à primeira. Para todo e qualquer admirador de música, ladies & gentleman, apresento-vos: Thornill.

Bernardo Freire

Rating: 4 out of 4.

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