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Metade para mim, metade para vós” – “Honeyland”

Com mais de 400 horas de filmagens recolhidas durante três anos por uma pequena equipa, os realizadores Tamara KotevskaLjubomir Stefanov conseguem a difícil tarefa de condensar o material numa das histórias mais importantes e aflitivas da década. Interessado no balanço ténue entre a humanidade e a natureza, “Honeyland” é um documentário que mereceu a nomeação para Melhor Documentário e para Melhor Filme Internacional nos Óscares deste ano, e que analisa de forma imersiva um alfinete orgânico de modo a extrapolar conclusões à escala global.

Para vincular esta mensagem, o filme começa por introduzir Hatidze Muratova, uma apicultora nos seus cinquentas de idade que vive com a sua débil mãe, Nazife Muratova, nas regiões naturais da Macedónia do Norte. Não têm utensílios, parecem possuir apenas a roupa que trazem no corpo e o seu único meio de subsistência são pequenas colmeias que originam o mel que Hatidze vende em Escópia, a capital do país. Aos olhos da maioria, a sua pacata e silenciosa existência é classificada como pobreza, mas por vezes temos a impressão de que têm o suficiente.

A certo ponto, um casal turco entra em cena carregado com gado doente, carrinhas meio avariadas e sete filhos. A sua chegada é tempestuosa e até divertida. Hatidze acaba por ter uma atitude positiva para com a família, permitindo até que explorem um pouco as suas doces colheitas. Afinal de contas, são imensas bocas para alimentar. No entanto, por questões económicas, o bem-estar das abelhas é posto em xeque.

Realizado com tremenda perícia e elegância, “Honeyland” tira o fôlego imagem após imagem. Composto fundamentalmente por paisagens naturais deslumbrantes e os confins apertados do habitat da protagonista, a direcção de fotografia conta a história tanto como o diálogo dos intervenientes. Por vezes é estática, rígida e rotineira, como a vida das personagens. Mas mesmo nestes instantes não peca por beleza. O refúgio de Hatidze, à noite iluminado por uma lamparina, confere à imagem uma qualidade pitoresca, como se as pessoas estivessem a pousar para a câmara. É raro testemunhar este encanto e fazer parecer tudo tão orgânico.

As suas virtudes cinematográficas são a estética no topo da substância da narrativa. Com este documentário sensível e consciente, os criativos procuram passar uma mensagem sobre a relevância da sustentabilidade num mundo cada vez mais industrializado. Sobretudo, alertar para os limites dos ecossistemas e que tudo tem um ponto de não retorno. Esta preocupação é familiar, local, regional, nacional e internacional, e afeta desde o organismo mais simples ao mais complexo, numa rede de interdependência da qual não podemos escapar ou abusar.

Há que ser mais como Hatidze, que está tão íntima com a natureza da espécie que explora numa relação simbiótica, que muitas vezes nem malhas protectoras precisa de usar. Esta segurança, confiança e até admiração pelo outro ser vivo é o que lhe permite comprar comida. É o que lhe permite cuidar da sua mãe. É o que lhe permite subsistir. Com pouco? Talvez. Para elas, mais do que suficiente.

Bernardo Freire

Rating: 4 out of 4.

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