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Porque A Arte Somos Nós

Uma realidade crua – quase poética – é retratada em “Índice Médio de Felicidade” de David Machado, uma obra sobre luta numa sociedade em decadência económica, e um ensaio sobre a luta interior entre o desistir e o continuar.

Com um Portugal escasso em emprego e uma sociedade completamente desprovida de esperança, vivemos a história de Daniel, um homem de família, que vê a sua vida ser-lhe arrancada das próprias mãos quando perde o emprego e encontra-se numa espiral de desgraças. Este trabalhava numa agência de viagens há quase dez anos e quando a crise ataca o seu país, é despedido, a sua mulher muda-se para Viana com os filhos, e Daniel fica em Lisboa sozinho a lutar pela sobrevivência – literalmente.

No entanto, a espiral de desgraças não começou quando foi despedido – com um currículo como o seu, bastava enviá-lo para algumas empresas e voltaria ao trabalho num piscar de olhos, assim pensava ele, mas os tempos mudaram e a falta de dinheiro atacou toda a gente, até quem realmente queria trabalhar. Os verdadeiros infelizes acontecimentos começaram quando o seu amigo de infância, Xavier, um neurótico que se encontrava enclausurado em casa há doze anos, decide sair para ir ajudar o seu professor do sétimo ano.

É uma obra pouco apreciada a nível nacional, mas que retrata uma realidade tão verdadeira e tão negra que, em alguma parte, nos acabamos por sentir como o Daniel. Todo o livro é dirigido ao seu outro amigo, Almodôvar, preso por assaltar uma estação de serviço, deixando um filho e uma mulher para trás desamparados, que acabam por precisar da personagem principal.

Qualquer pessoa teria desistido se se encontrasse nas situações descritas ao longo da história, porém a força e persistência de Daniel foram mais fortes que as adversidades. Sem dinheiro para manter o apartamento onde sempre viveu, acaba por viver no carro uns tempos e, posteriormente, no seu antigo escritório; emprego nem vê-lo e quando o filho de Almodôvar começa a entrar em caminhos obscuros, a vida – já – desgraçada de Daniel leva mais um choque.

O turning point do livro, diria eu, não existe. Toda a história é o turning point, é o plot twist, os sucessivos abanões que a vida dá a Daniel são quem o leva à realização de que a capacidade de se agarrar à esperança e àqueles que ama, pode superar tudo. Porque esta história é precisamente isso: uma história de superação e de amor, amor pela amizade, amor pela família e, acima de tudo, amor pela vida. Mesmo assim, se tivesse de nomear um turning point, diria que a história adquire um novo ritmo – e mesmo um novo tom – quando um grupo improvável de pessoas se junta e se desloca até à Suíça para ajudar uma completa estranha. Aqui vemos a verdadeira essência de todas as personagens, os seus verdadeiros desígnios, os seus destinos.

David Machado escreve uma obra muito pertinente que critica a sociedade em geral, mas que, em última instância, nos leva a criticar a nós mesmos e a perguntar: “Então, afinal, qual é o meu índice de felicidade?”. Muitos de nós nunca responderemos a esta pergunta porque a ilusão é sempre mais fácil de aceitar que a verdade.

Lorena Moreira

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