“Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz – disse depois de um tempo – temos um pequeno período de tranquilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos. Começamos a tornar-nos cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos.
Surgem as doenças e as psicoses. O que queremos evitar no combate – a deceção e a derrota – passa a ser o único legado da nossa covardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livrasse das nossas certezas, das nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de domingo.“
Trecho de “O Diário De Um Mago”
Um dos maiores fenómenos editoriais do mundo atende pelo nome de Paulo Coelho (1947). Afinal, não é coisa pouca ser traduzido para 56 línguas e constar publicado em 155 países. Mérito do membro da Academia Brasileira de Letras, o controverso autor é bom a fazer marketing e no ofício da escrita em si derrapa muitas vezes, fazendo um compilado superficial de filosofias e magias, ele que se auto intitula (ou se auto intitulava, ‘O Mago’).
Já li e analisei a biografia dele, escrita por Fernando de Moraes (1946) e ressaltei a honestidade intelectual de Paulo, entregando o seu baú de memórias ao biógrafo e não querendo ler a versão prévia daquilo que seria publicado. Dizem que depois não gostou muito do resultado, mas que foi honesto, foi.
Assim, o livro “O Diário De Um Mago” (Gold Editora, 189 páginas) chamou-me à leitura. Será magia? O exemplar fazia parte de um projeto de Coelho com bancas de jornais e revistas, sendo que traz a advertência de que não poderia ser comercializado em livrarias. Mas vamos analisar o texto? Este livro é de 1987, um dos primeiros e que catapultou a carreira do escritor. Tem como mote a sua peregrinação pelo caminho de Santiago de Compostela e, se vale um aprendizado adquirido, vim a saber que Compostela tem como origem duas palavras: campo e estrela. Bom!

O peregrino havia participado num ritual de magia em Itatiaia (Brasil) e o seu Mestre vaticinou que ele não estava apto ainda a receber a sua espada. Que ela o estaria esperando no caminho espanhol e por isso a aventura. A sua esposa incentivou-o a empreender a busca e lá foi o nosso místico percorrer o seu caminho. Um corolário de reflexões confusas, ensimesmamentos e a presença de um guia com o pseudónimo Petrus e assim a jornada de Paulo e Pedro, homónimo a dois dos mais importantes discípulos de Cristo.
O livro é permeado de exercícios, publicados de forma a incentivar os seus leitores a fazerem e, sinceramente, é algo tão disparatado que não merece tanto crédito. Mas sei de muitos leitores que se submeteram ao exercício da água; ao exercício da crueldade (quando estiverem a passar pela sua cabeça pensamentos negativos, você deve cravar uma unha num dedo até sangrar, assim a dor física chamará a sua atenção para aquilo que é mais importante); o ritual do globo azul e o exercício do enterrado vivo. Tudo bem desarrazoado.
Ao iniciar o “Diário…”, acreditei que pelo menos teria uma descrição pormenorizada dos lugares, mas nada. Cidades apenas citadas, a viagem proposta por Paulo é introspetiva. Uma alma confusa, por assim dizer. Como no encontro com o cão feroz que ele intui ser a Legião de demónios e com o qual trava uma luta encarniçada, saindo todo mordido. Mas, conseguirá suportar e vencer assim o medo? Tem a obrigação de levantar sozinho uma pesada cruz e recolocá-la no buraco. Caminhando pelo solo árido espanhol recebe uma benfazeja chuva e a sua espada, guiada agora por uma miúda de 8 anos, e não mais pelo seu guia, que se despediu durante a travessia. Bastante enigmático este Petrus!
Menções a castelos medievais, a Ordem dos Templários, descrição do Portal do Perdão (para aqueles peregrinos que não conseguiram chegar ao destino final) e na média de 30 páginas diárias a história não me captou. Mas, como podemos depreender de passagens excelentes de um todo mau, lá na página 145 encontrei algo estratégico que penso ser brilhante e a colocação das palavras soa como uma motivadora sentença. Assim:
“O nosso inimigo só entra na luta porque sabe que nos pode atingir. Exatamente naquele ponto onde o nosso orgulho nos fez crer que éramos invencíveis. Durante a luta estamos sempre à procura de defender o nosso lado fraco, enquanto o Inimigo golpeia o lado desguarnecido – aquele em que nós temos mais confiança. E terminamos derrotados porque acontece aquilo que não podia nunca acontecer: deixar que o Inimigo escolha a maneira de lutar.“
Já na parte final do livro, foi com tédio de domingo que cheguei ao final, julgando que de onde menos se espera, é que não sai mesmo nada. Fenómeno editorial, sucesso merecido por levar o nome do Brasil a ser conhecido no estrangeiro, o certo é que nem sempre reconhecimento e qualidade literária caminham lado a lado.
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