Um verdadeiro congraçamento de povos ocorreu naquela tarde no Mineirão, 8 de julho. Camisas rubro-negras e brancas com o símbolo de uma águia teutónica, verde e amarelas da seleção canarinho davam o tom nas arquibancadas. Um garotinho de óculos virou-se para mim e soprou a sua vuvuzela, herança da Copa do Mundo anterior, na África do Sul. Os seus pais pediram desculpa. Ri e fiz entender que estava tudo bem. A minha sisudez ao torcer sempre foi fria como o cume dos Alpes Suíços, à medida em que envelheci e, amante do futebol, convivi com vitórias e derrotas. Certamente o entendimento que o futebol é o congraçamento, a disputa leal e a arte do bem jogar. Adversários sim, inimigos nunca.
Hinos nacionais, equipas perfiladas e o árbitro mexicano apita para o início do jogo. O garotinho fica empolgado com os primeiros 10 minutos e parece que me escolheu para alvo: vira e mexe, vira-se para mim e sopra o seu irritante instrumento. Os seus pais o admoestam e eu retribuo com um sorriso. Golo da Alemanha. Alguns minutos depois, mais um golo da Alemanha. No meio do 1.º tempo ainda, quase não dá para contar o que está a acontecer: golo, mais um golo e mais um golo da Alemanha. 5 a 0 ainda no 1.º tempo.
Um clima de perplexidade toma conta do estádio. Até os frios alemães extravasam, mas paralela e mudamente alguns se constrangem com tamanha descortesia para com os nossos anfitriões. Se o técnico alemão Joachim Löw tirou Hummels no intervalo de modo a preservá-lo, saco a minha camisa rubro-negra e a seguro nas mãos. O garotinho chora e nesse desespero trágico se dirige a mim e pede um abraço. O gesto é genuíno e emociona até os seus pais. Afago-lhe a cabeça e ofereço-lhe a camisola para que seque as suas lágrimas. De que serviria uma vestimenta que não pudesse servir de lenço a um inocente?!
Volto ao tempo enxergando-me naquele garoto. A minha adesão à Alemanha se deu pela proximidade baiana de quando fui chamado a preparar moquecas de camarão para alguns jogadores. Muito simples, fizeram da aldeia as suas casas e deixaram uma excelente estrutura em Santo André, em Santa Cruz Cabrália e de sobra me contrataram para cozinheiro assistente. Estes novos desbravadores conquistaram o coração de muitos: do professor de dança que fez rebolar o gigante Manuel Neuer; das crianças da escola que jogaram uma ‘pelada’ com alguns deles e pela simpatia e simplicidade exploraram o melhor que podiam daquele paraíso.
Mas a minha essência formou-se na Tragédia de Sarriá, quando, aos 7 anos, descobri da forma mais dura que nem sempre o melhor ganha. Nem a imagem de plástico da Nossa Senhora Aparecida, em cima da televisão a preto e branco de 14 polegadas deu conta de conter Paolo Rossi, aquele franzino, com os seus três golos. Do mesmo modo que o senhor Abaeté, vizinho, me consolou explicando que o Brasil estava eliminado da Copa, sendo aquela palavra (eliminado) como uma faca a perfurar o meu frágil corpinho, fiquei inconsolável com aquele fado.
Então Zico, Falcão, Luizinho, Sócrates, Leandro, Cerezo, Júnior e Óscar não eram super-heróis que nos fariam ganhar a despeito de qualquer dificuldade? E Nossa Senhora Aparecida, porque não nos socorreu?
Na saída do Mineirão, despedi-me dos pais e do garotinho e compadeci daquele resultado. Anónimo no meio da multidão, entre chorosos e felizes, dirigi-me ao hotel para reassumir o trabalho que findaria no domingo, no mítico Maracanã. Dizem que sete é conta de mentiroso, mas o 7 a 1 é verdadeiro demais, semelhante às lágrimas do garotinho de 7 anos consolado pelo senhor Abaeté, que Deus o tenha.
Ao garotinho de outrora, hoje adolescente, espero que mais uma Copa do Mundo o tenha preparado bem para compreender que nesta, disputada no Catar, o Brasil é sim um dos favoritos, mas não o único. Deixemos aos Deuses do Futebol, ao Sobrenatural de Almeida e aos detalhes técnicos daquela bola que bate na trave direita, percorre toda a linha do golo, bate na trave esquerda e volta às mãos do arqueiro o não à vitória, sendo o contrário totalmente possível.
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