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No mercado dos videojogos, é já algo natural que jogos de sucesso sejam apenas o início de franquias, não raras vezes com dezenas de sequelas ou spin-offs. É um sentimento já enraizado na mente dos consumidores onde, ao contrário de outros meios de entretenimento, o potencial das sequelas não é visto de forma tão negativa. Embora o objetivo final passe sempre pela maximização do potencial económico da propriedade intelectual, as sequelas nos videojogos permitem afinar detalhes quando necessário, sendo por isso que haja várias séries com lançamentos anuais ou bianuais (a Ubisoft e a Electronic Arts são dos exemplos mais claros).

Depois temos “Sleeping Dogs”. Um jogo que já conta com mais de 10 anos (lançado em 2012), mostra como nem sempre são precisas inúmeras sequelas para uma obra deixar a sua marca e continuar a ter impacto depois de tantos anos, num meio onde as criações ficam mais rapidamente datadas. Resultante de um processo de desenvolvimento difícil e prolongado e já depois de uma alteração de distribuidora, “Sleeping Dogs” foi um dos primeiros esforços do estúdio canadiano United Front Games.

“Sleeping Dogs” foi lançado em Agosto de 2012 para PS3, Xbox 360 e PC

Podendo ser categorizado como uma espécie de “Grand Theft Auto” em Hong Kong, “Sleeping Dogs” rapidamente mostra que estas semelhanças ficam apenas pela rama. Procurando mostrar um mundo e uma história muito mais negros do que os que se encontram na série “GTA”, o jogo foca-se na história de Wei Shen, um polícia que trabalhou vários anos em São Francisco e que é transferido para a sua terra natal em Hong Kong, tendo a missão de se infiltrar e destruir a Sun On Yee, uma organização ilegal que faz parte das Tríades chinesas. O cartão de entrada de Shen para a Sun On Yee é um amigo de infância, que o introduz ao gangue.

A história procura estabelecer Shen como uma personagem moralmente ambígua e fugir ao papel do polícia perfeito, sobretudo quando é estabelecido na parte inicial da história que Shen tem interesses pessoais na missão. O jogo duplo do agente infiltrado é uma das vertentes mais interessantes da narrativa, que, embora não seja completamente nova, é sincera e desperta a curiosidade.

“Sleeping Dogs” conta a história de Wei Shen, um polícia infiltrado num gangue de Hong Kong

O mapa do jogo, situado numa cidade de Hong Kong contemporânea, está desenhado sob a forma de mundo aberto, podendo os jogadores já ter uma noção prévia do que podem esperar, dada a ubiquidade atual deste tipo de jogos. Contudo, o retrato de Hong Kong e da cultura oriental é uma bem-vinda lufada de ar fresco, sobretudo para jogadores mais virados para videojogos ocidentais.

Todos os cenários, ruídos ambientais, atividades e pessoas mostram o cuidado tido pela equipa de design, acrescentando uma camada de imersividade que vende bem o mundo criado. O uso do cantonês em vez do inglês para a maior parte dos diálogos de fundo, e até mesmo em muitas das interações das missões principais, é um pormenor que merece também ser destacado pela ousadia. O jogador pode navegar pelo extenso mapa da cidade, roubar e conduzir veículos (o estatuto de Wei Shen como falso criminoso possibilita este tipo de crimes), entrar em corridas de rua, ou até envolver-se em atividades mais originais como cantar em bares de karaoke.

O retrato de Honk Kong contemporâneo é uma das características mais diferenciadoras do jogo

Em termos de jogabilidade, “Sleeping Dogs” não diferiria muito do tradicional jogo de mundo aberto na terceira pessoa, não fosse um pequeno detalhe. Aproveitando as maiores restrições de Hong Kong relativamente ao uso de armas (comparativamente, por exemplo, aos Estados Unidos), muitas das mecânicas foram direcionadas para o combate corpo a corpo. Na maioria das lutas que Wei Shen trava, o combate é feito sem armas, usando um sistema de combate similar ao de “Batman: Arkham Asylum“, onde, com três ações principais (atacar, agarrar e contra-atacar) e combinações entre estas, é possível efetuar um conjunto relativamente elevado de golpes.

Existe também a possibilidade de usar armas brancas, como facas ou ferros, bem como de usar o ambiente para eliminar os inimigos de forma aparatosa. Nas esporádicas secções de combate com armas, não há grandes mecânicas a destacar a não ser a possibilidade de usar slow motion quando Wei Shen salta por cima de obstáculos. Embora o combate não seja propriamente desafiante e, após algum tempo, se torne inclusive repetitivo, a sua vertente corpo a corpo é um limpa palato interessante.

Em “Sleeping Dogs”, o combate é maioritariamente focado em corpo a corpo

“Sleeping Dogs” teve algum sucesso nos meses seguintes ao seu lançamento, com centenas de milhares de unidades vendidas. Porém, cerca de um ano depois de ter sido lançado, foi etiquetado pela distribuidora Square Enix como um falhanço de vendas. Talvez por esta razão, uma sequela que estaria a ser preparada pela United Front Games, viria a ser cancelada ainda antes de entrar em produção.

Curiosamente, “Sleeping Dogs” viria a ganhar nos anos seguintes o estatuto de clássico de culto, continuando ainda hoje a ser redescoberto pelas novas gerações de gamers. Depois do seu estúdio ter sido fechado e sem quaisquer novidades em relação ao jogo há vários anos, já poucos fãs esperam uma continuação. Uma visão otimista da realidade pode até argumentar que esse é o principal mérito de “Sleeping Dogs”, o de apresentar uma história que vale por si mesma, sem precisar de prometer que terá algo mais a oferecer.

“Sleeping Dogs” disponível em: PS3, Windows, Xbox 360

“Sleeping Dogs: Definitive Edition” disponível em: macOS, PS4, Windows, Xbox One

Luís Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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