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Porque A Arte Somos Nós

O filósofo austríaco Ludwig Josef Johann Wittgenstein (1889-1951) teve uma vida até certo ponto heroica. Formado em Engenharia Mecânica e Engenharia de Aviação, combatente da I Guerra Mundial, o egresso em Cambridge (Inglaterra), entusiasmou-se pelas aulas do notável Bertrand Russell (tratarei dele aqui em breve) e voltou a sua atenção para a grande cacofonia filosófica à época. Inspirado por Russell, herdeiro da escola empirista que sempre contrastou com as especulações metafísicas europeias propriamente ditas, vide escolas alemãs e francesas, na Ilha a investigação recaía sobre a ciência e os seus métodos, a verdade e o discurso.

Essa diferenciação entre a ciência técnica e a especulativa verifica-se no contraste entre as aplicações. Vou dar-lhes um exemplo básico: quando Marie Curie e o seu marido descobriram o elemento rádio, possibilitando a radioterapia e outras aplicações, bem, isso é tácito. Observável e justificado. Agora coloquem cinco filósofos num Congresso e quando eles se aventarem a termos gerais como Justiça, Verdade, Sabedoria, etc. isso tudo não passará de termos às vezes vazios de significado. O grande argumento de Wittgenstein foi dissociar a linguagem do mundo, como se esta tivesse a primazia de esclarecer e definir aquilo que seria plausível. Tudo isso na área da Filosofia Analítica de Russell, da qual aprendeu.

A sua grande obra, “Tratado Lógico Filosófico“, devo confessar, é um tanto indigesto, mas podemos avançar aos poucos. Irei exemplificar aqui: escrevo, escrevo, escrevo e escrevo aqui para OBarrete. Palavras, palavras e mais palavras. Uma overdose de palavras. Wittgenstein investigaria isso tudo, e certamente analisaria cada termo meu usado para retirar um substrato. Passemos então a um exemplo prático; pretendo viajar à cidade do Porto e peço ao meu amigo Diogo que me adquira um bilhete para assistir a um jogo de futebol no Estádio do Dragão.

Capa do livro “Tratado Filosófico”, do escritor austríaco Ludwig Wittgenstein (Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2015)

Quando estiver com o meu bilhete em mãos, sendo que ele me possibilita a entrada, pois bem, é verdade que aquele objeto é um código que me permite o acesso. Assim sendo, é verdade que o bilhete é bilhete, que aquele cartão magnético me concede acesso. Definição. Tudo o que Wittgenstein parece querer é estabelecer um código de linguagem com o objeto, e vice-versa. Linguagem para dar conta do mundo, mesmo sendo sabedor dos seus limites. Afinal, o quanto o mundo está disposto a dar-se a conhecer?

Após escrever este “Tratado…”, Wittgenstein foi tratar de outras coisas. Despretensiosamente, passou a lecionar miúdos em escolas primárias e fez uma pausa das atividades académicas. Abastado financeiramente, retirou-se do mundo como Montaigne e quando deu por conta fez uma revisão crítica de tudo o que havia escrito no “Tratado…”. Não deixaria a obra incólume. Dez anos após, atacou-a sem dó nem piedade, por vezes parecendo ser a autoria de uma outra pessoa. Esse revisionismo levou-o a distanciar-se de Bertrand Russell e as suas investigações ganharam o título de “Investigações Filosóficas“. É por isso que muitos diferenciam o 1.º Wittgenstein do 2.º Wittgenstein.

Confesso que foi Stephen Hawking em “Uma Breve História do Tempo” quem me chamou a atenção para “o grande filósofo do século XX”. Não concordo com Hawking, mas compreendo melhor agora o isolamento do conhecimento nas Ilhas Britânicas e toda a sua tradição. Enfim, não briguemos por semântica. Mas o certo é que Wittgenstein pode nos acompanhar pela vida toda, pois a linguagem é esse código que nos une e nos afronta, e quantas vezes utilizamos termos aos quais não percebemos sermos vazios de conteúdo?

Tenho refletido ultimamente, mesmo não sendo um profundo conhecedor do filósofo austríaco, que tudo o que nos rodeia são palavras, noções e filosofias, muitas delas vazias e despropositadas, que não nos levam a nada, e quando esperam conhecerem o cerne da Justiça e da Verdade, bem, essas coisas não existem, pergunto a todos vocês se viram uma senhora elegante chamada Verdade desfilando por aí? E a Justiça, poderia ser representada por um senhor elegante de fraque e cartola?

Perceberam como muitas das coisas pelas quais lutamos e discutimos, todas as nossas explanações e experiências em tecer palavras são tentativas por vezes vãs que não espelham o mundo? É quando o excêntrico humildemente aponta a solução: “Quando não há nada mais a se dizer, o preferível é calar-se“. Um sábio conselho e que, se levado a cabo e com o auxílio de um bom dicionário filológico, pode nos fazer crer que discutimos muitas vezes por coisas fugazes.

Ludwig Josef Johann Wittgenstein acabaria por sucumbir a um cancro na próstata no dia 29 de abril de 1951, aos 62 anos de idade

Diz a lenda que quando Wittgenstein solicitou uma apreciação das suas ideias contidas numa tese, solicitou ao examinador: “Diga-me por favor se tem propriedade o que escrevi, pois, se me considerar um idiota, irei ser aviador“. O examinador abortou a sua carreira de aviador, exclamando que as ideias contidas ali eram originais e excelentes.

Enfim, de forma despretensiosa, sem ares de filósofo catedrático, sem vaidades pessoais e levando uma vida autêntica e genuína, Wittgenstein marcou o seu nome na História da Filosofia como um dos cânones. Exercício prático, rogo a vocês que analisem este texto, extraiam dele o sumo e joguem o corolário de palavras vazias fora, e se me sugerirem ser aviador, irei deliberar bastante sobre o assunto.

Findo aqui, acreditando que este artigo bem se poderia ater ao título exposto acima.

Alguns dos pensamentos de Wittgenstein:

Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos.

O mundo é a totalidade dos factos, não das coisas.

O mundo é tudo o que acontece.

Filosofar é como tentar descobrir o segredo de um cofre: cada pequeno ajuste no mecanismo parece levar a nada. Apenas quando tudo entra no lugar a porta se abre.

O que eu sei sobre Deus e o sentido da vida? Eu sei que este mundo existe.

O homem possui a capacidade de construir linguagens com as quais se pode expandir todo sentido, sem fazer ideia de como e do que cada palavra significa – como também falamos sem saber como se produzem os sons particulares.

O conhecimento é uma ilha cercada por um oceano de mistério. Prefiro o oceano à ilha.

A minha dificuldade é apenas uma – enorme – dificuldade de expressão.

A dificuldade é compreender a falta de fundamento das nossas convicções…

Os problemas filosóficos surgem quando a linguagem sai de férias.

Marcelo Pereira Rodrigues

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